Mundorama, 20/09/2013
A guerra proxy na Síria e as disputas estratégicas russo-estadunidenses no Oriente Médio
Lucas Kerr Oliveira, Pedro V. P. Brites & João Arthur Silva Reis
O
acordo entre Rússia e Estados Unidos para a destruição das armas
químicas sírias, anunciado dia 14 de setembro, pode, ao menos por ora,
impedir uma nova intervenção estadunidense no Oriente Médio. O arranjo
estabelece que o regime de Bashar Al-Assad entregue seu arsenal químico
para o controle internacional e que este seja destruído até a metade de
2014 (RiaNovosti, 2013). O acordo proposto pela Rússia em 09 de setembro
arrefeceu a escalada da mobilização militar dos EUA. O sucesso da
iniciativa diplomática russa, que em grande medida deve-se ao envio de
uma esquadra com considerável poder de fogo no Mediterrâneo, pode ser
considerado uma inflexão na situação regional. Ao impedir o ataque à
Síria, foi freada uma tendência que se mantinha desde a queda de Kaddafi
em 2011: o avanço quase sem resistência dos interesses dos EUA e de
seus aliados no Oriente Médio.
A guerra na Síria teve início a partir de
uma escalada de violência, que começou com os protestos de 2011, pouco
depois do início da “Primavera Árabe”. A violência das manifestações
aumentou progressivamente, com crescente número de mortos, à medida que
rebeldes armados aproveitaram-se da situação para atacar o governo
instituído. Importa destacar que a “oposição” é formada por diferentes
facções de rebeldes, inclusive com rivalidades entre si. Enquanto
algumas facções são essencialmente étnicas, como os curdos sírios,
outras são formadas por grupos religiosos conservadores e
fundamentalistas, além de grupos como o Exército Sírio Livre, que inclui
desertores das forças armadas nacionais e recebem apoio turco. Bandos
armados mais radicais, como a Al-Nusra, ligada à Al-Qaeda, recebem apoio
saudita e inclui grandes contingentes de mercenários líbios e
chechenos. Este é o principal indício de que realmente está em andamento
uma guerra proxy de diversos atores, entre eles Arábia Saudita e Turquia, contra a Síria.
Os Estados Unidos adotaram, desde o
princípio, uma postura de condenação ao regime sírio e apoio aos
rebeldes. Entretanto, apesar do suporte dado pela OTAN e pela CIA aos
rebeldes – via Turquia e Jordânia –, os EUA não conseguiram obter a
renúncia ou a capitulação do regime de Assad (Lubold, 2013). Entretanto,
em 2012, Obama afirmou que os EUA só interviriam na Síria se o regime
de Assad ultrapassasse o que ele chamou de “linha vermelha”, ou seja,
utilizasse armas químicas ou biológicas.
Após o incidente de 21 de agosto, em que
ocorreu o uso de armas químicas, o governo americano declarou que iria
intervir militarmente na Síria, à revelia do Conselho de Segurança da
ONU, mesmo que a comissão das Nações Unidas não tenha conseguido
identificar o autor dos ataques (ONU, 2013), O Presidente americano,
porém, transferiu para o Congresso a responsabilidade final de aprovar
ou não a intervenção, que, a princípio, seria uma ação limitada,
restrita a alvos específicos. Apesar do apoio incondicional da França, o
veto do parlamento britânico à intervenção representou um revés
significativo para a estratégia dos EUA. Além disso, na cúpula do G-20
em São Petersburgo ficou evidente o relativo isolamento americano, já
que boa parte dos países presentes se opôs à ação militar.
Nesse contexto, a posição russa foi a
mais assertiva. O anuncio do envio de navios do Mar Negro, do Norte e do
Pacífico para o Mediterrâneo leste, foi um claro sinal de que a Rússia
não toleraria um ataque à Síria, tradicional aliado do país. Em 11 de
setembro, havia 8 navios russos na região, enquanto os EUA, por sua vez,
contavam com 6 vasos de superfície, além de uma série de bases aéreas e
navais no entorno. Apesar da evidente assimetria logística em favor dos
Estados Unidos, não há grande discrepância na capacidade destrutiva
mútua das duas esquadras. Trata-se de uma correlação surpreendente, dada
a superioridade técnica da marinha estadunidense. Esse relativo
equilíbrio de forças demonstra que o projeto da US Navy, ainda da
década de 1990, de privilegiar a capacidade de ataque à terra, deixou-a
relativamente vulnerável diante de outra marinha de guerra (Martins,
2013). Portanto, a presença da marinha russa no Mediterrâneo não teve
caráter meramente simbólico, mas sim de dissuasão efetiva, ao demonstrar
a possibilidade de escalada do conflito em caso de intervenção
americana.
A presença das marinhas americana e russa
na região reflete a importância geoestratégica do Oriente Médio para os
dois países. Os múltiplos interesses estadunidenses na região incluem,
principalmente, o controle geopolítico do petróleo e a defesa de seus
aliados regionais. Nas duas últimas décadas ganhou força o projeto
neoconservador de remodelar o mapa do Grande Oriente Médio em bases
étnico-religiosas (Peters, 2006). A iniciativa de fragmentar a maior
parte dos Estados Nacionais da região através de uma guerra permanente,
tudo indica, começou com a balcanização do Iraque, Líbia e Síria, sendo o
Irã um dos possíveis próximos alvos. Tal projeto aproxima os interesses
dos neocons estadunidenses aos dos wahhabitas sauditas, que
declaram a pretensão de liderar um grande califado regional
petroexportador de maioria sunita, capaz de competir com o petróleo
russo. Para isso, seria preciso viabilizar uma nova rede de oleodutos
alternativa ao escoamento através do Estreito de Ormuz, sob a liderança
saudita.
Para a Rússia é fundamental sustentar o
equilíbrio de poder no Oriente Médio, mantendo os únicos aliados que lhe
restaram na região, o Irã e a Síria, onde se localiza o Porto de
Tartus, a única base naval russa de águas quentes fora de seu
território. A possível balcanização destes aliados não ameaça apenas os
interesses russos na região, mas influencia diretamente na estabilidade
do Cáucaso. Principalmente porque há muitos chechenos entre as forças
rebeldes sírias, o que fortalece o movimento separatista na Chechênia e
Daguestão, um claro problema de segurança nacional para a Rússia.
Portanto, da perspectiva russa, combater os rebeldes sírios seria uma
forma de enfraquecer os radicais chechenos baseados no exterior (Hill,
2013). Assim, compreende-se que a oposição russa à intervenção dos EUA
tem motivações mais profundas do que a simples defesa de um regime
aliado.
Cabe destacar que a resolução da guerra
na Síria ainda parece bastante distante. Mesmo se o acordo para a
retirada das armas químicas se efetivar, isso não garante a
estabilização do país e nem previne uma nova futura escalada das tensões
entre as potências extrarregionais. Além disso, a evolução da crise na
Síria será vital para o jogo político doméstico nos Estados Unidos. Após
endurecer a retórica, a despeito da oposição da opinião pública à
intervenção, o governo Obama teve de recuar diante da proposta do
governo Putin, o que pode emparedar ainda mais o governo democrata.
Nesse sentido, as disputas internas sobre o projeto americano para o
Oriente Médio, bem como a reação de Rússia e China, parecem ensejar uma
instabilidade ainda maior na região nos próximos anos.
Referências Bibliográficas
MARTINS, José M. Q. (2013). Painel Síria: Escalada ou Reequilíbrio? Apresentação realizada em 12 de setembro de 2013. FCE, Ufrgs, Porto Alegre, RS.
_________________________________
Lucas Kerr de Oliveira é professor e
coordenador do curso de Relações Internacionais e Integração da
Universidade Federal da Integração Latino-Americana – UNILA. Doutor em
Ciência Política e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
Pedro Vinícius Pereira Brites é Diretor-Geral do Instituto
Sul-Americano de Política e Estratégia – ISAPE. Mestrando em Estudos
Estratégicos Internacionais e Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul – UFRGS, bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior – CAPES.
João Arthur da Silva Reis é Graduando em Relações Internacionais pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Pesquisador colaborador do Centro de Estudos Internacionais sobre Governo – CEGOV-UFRGS e do ISAPE.
_________________________________
Fonte: