domingo, 22 de novembro de 2015

A hegemonia alemã na Europa


A hegemonia alemã na Europa 

Nesta segunda-feira, 23 de novembro de 2015, no Clube de Cultura de Porto Alegre, ocorre um debate entre o prof. Dr. Paulo G. Fagundes Visentini e o prof. José Miguel Quedi Martins sobre o "Novo papel da Alemanha: derrotada em 1945, dona da Europa em 2015".

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Referente a este tema, recomendamos a leitura do artigo de Emmanuel Todd:




TODD, Emmanuel (2014). La France s’est mise en état de servitude volontaire par rapport à l’Allemagne.  Les Crises, 01 setembro 2014.



http://3.bp.blogspot.com/-1VLZPJBVHbQ/VVVRWLnuMFI/AAAAAAAA-c4/Yh9v1a0l6CU/s1600/Emmanuel%2Btodd-mapa.jpgA França estabeleceu um estado de servidão voluntária em relação à Alemanha





Olivier Berruyer (OB): Emmanuel Todd, como você vê a crise atual com a Rússia?
Emmanuel Todd (ET): Há alguma coisa estranha, irreal, no atual sistema internacional. Alguma coisa não faz sentido: todo mundo dedicado a atacar uma Rússia que mal chega aos 145 milhões de habitantes, que se reergueu, é verdade, mas em relação à qual ninguém pode supor que volte a ser potência dominante, em escala mundial, nem mesmo em escala europeia. A força da Rússia é fundamentalmente defensiva. Manter a integridade de seu território imenso já é problemático, com população tão reduzida, comparável à do Japão.
A Rússia é uma potência de equilíbrio: seu arsenal nuclear e sua autonomia energética fazem com que possa desempenhar o papel de contrapeso aos EUA. A Rússia pode permitir-se acolher Snowden e ajudar a defender as liberdades civis no Ocidente. Mas a hipótese de uma Rússia que devore a Europa e o mundo é absurda.
OB: No início de sua carreira você interessava-se muito mais pela URSS – chegou a prever a desintegração iminente. Hoje, a Rússia não tem mais o nível hegemônico daquele tempo, e embora a Rússia seja mais democrática que a URSS, é tratada com ainda mais desconsideração. Por exemplo, quando a URSS interveio na Tchecoslováquia, em 1968, com seus tanques, houve protestos, mas rapidamente, em semanas, a histeria acabou. Hoje, quando não acontece nada nem semelhante, além de uma população que vota democraticamente na Crimeia a favor de ser reintegrada à casa da mãe russa, tem-se a impressão de que estaria acontecendo drama terrível, que justificaria até fazermos guerra à Rússia para devolver a Crimeia, contra a vontade dos crimeanos, à Ucrânia. Por que o tratamento tão diferente?
ET: Essa questão não diz respeito só à Rússia, diz respeito a todo o Ocidente. O Ocidente, com certeza massivamente dominante, está hoje contudo, em todos os estados que o compõem, inquieto, ansioso, doente: crise financeira, estagnação ou baixa nos ganhos, aumento das desigualdades, ausência total de perspectivas e, no caso da Europa continental, crise demográfica. Se nos colocamos no plano ideológico, essa fixação contra a Rússia parece ser a procura de um bode expiatório, melhor, como a criação de inimigo necessário para manter alguma qualquer mínima coerência no Ocidente. A União Europeia nasceu contra a URSS; não vive sem o adversário russo.
Mas também é verdade que a Rússia impõe ao mundo ocidental alguns problemas de “valores”. Contudo, ao contrário do que sugerem as asneiras antiputinistas e russofóbicas do Jornal Le Monde, o problema do Ocidente é o caráter positivo e útil de vários valores da cultura e da história russa.
A Rússia não acompanhou o mundo ocidental na trilha do “liberalismo total”. Lá, se manteve e reafirmou-se um determinado papel para o Estado, e, também, uma determinada ideia nacional. É país que está começando a reerguer-se, inclusive em termos de fecundidade, de diminuição da mortalidade infantil. O desemprego é baixo.
Sem dúvida: os russos são pobres e ninguém na Europa ocidental inveja o sistema russo, também no nível das liberdades. Mas ser russo hoje é pertencer a uma coletividade nacional forte e protetiva, é a possibilidade de se projetar mentalmente para um futuro melhor, é estar andando para alguma coisa. Quem pode dizer a mesma coisa da França?
A Rússia está em vias de se tornar, sem que esse seja algum tipo de projeto, uma verdadeira ameaça para os que, no ocidente, fazem ares de nos governar, perdidos na história, que falam de valores ocidentais, mas que, como diz, acho, Basile de Koch, “em matéria de valores, só reconhecem os bursáteis”. Mas já não se trata de conflito entre Oriente e Ocidente, tradicional, regressivo, no sentido psiquiátrico, no qual os EUA seriam o motor.
A crise atual tem tudo a ver com a intervenção europeia na Ucrânia. Se se escapa do delírio ‘jornalístico’ das mídias ‘ocidentais’, que parecem ter regredido a 1956, em plena guerra fria ameaçando esquentar, e observamos a realidade geográfica dos fenômenos, o que se vê, muito simplesmente, é que o conflito acontece numa zona tradicional de enfrentamento entre Alemanha e Rússia.
Desde o início tive a sensação de que os EUA, dessa vez, talvez por medo da desmoralização depois que a Crimeia quis voltar à Rússia, acompanharam os passos da Europa, ou, mais, da própria Alemanha, porque é a Alemanha quem controla a Europa. Veem-se sinais contraditórios vindos da Alemanha. Às vezes, a Alemanha parece mais pacifista, numa linha de retirada, de cooperação. Outras vezes, ao contrário, aparece fortemente contestatária, ou enfrenta declaradamente a Rússia. O vigor dessa linha dura aumenta dia a dia.
Steinmeier levou Fabius e Sikorski a Kiev. Mas Merkel vai sozinha, em visita ao novo protetorado ucraniano. E não é só nesse enfrentamento, que a Alemanha caminha na frente. No espaço de seis meses, também nas últimas semanas, quando já estava em virtual conflito com a Rússia nas planícies ucranianas, Merkel humilhou os ingleses, ao impor-lhes Juncker, com grosseria inacreditável, como presidente da Comissão Europeia. Evento ainda mais extraordinário, os alemães começaram a afrontar os EUA, servindo-se de uma história de espionagem pelos norte-americanos.
É absolutamente inacreditável, se se conhecem as relações muito íntimas entre as atividades de informação e inteligência norte-americanas e alemãs, desde a guerra fria. Parece também hoje, que os serviços alemães de informação, BND, também espionam, muito normalmente, os políticos norte-americanos. Ainda que soe chocante, eu diria que, consideradas as ambiguidades da política alemã, sou absolutamente favorável a que a CIA monitore os responsáveis pela política alemã. Espero também que os serviços de informação franceses façam seu serviço e participem da vigilância sobre uma Alemanha cada vez mais ativa e aventurosa no plano internacional.
O que se deve considerar é que essa agressividade antiamericana da Alemanha é fenômeno novo, que temos de considerar. O estilo é fascinante. O modo como os políticos alemães falaram dos norte-americanos manifesta profundo desprezo. Já há importante fundo antiamericano além-Reno. Pude avaliá-lo quando do lançamento da edição alemã do meu livro Depois do Império. Acho que aquele fundo antiamericano explica o sucesso excepcional da edição em alemão. Já houve até um momento em que o governo alemão zombou das reprimendas norte-americanas em matéria de gestão econômica. Contribuir para o equilíbrio da demanda mundial? E depois, o que mais?
A Alemanha tem seu projeto, de poder, mais do que de bem-estar: comprimir a demanda na Alemanha, pôr a ferros os países endividados do sul, pôr uns amendoins ao sistema bancário francês que controla o Eliseu, etc..
Num primeiro momento, quando a Crimeia foi tomada, estive mais sensível ao restabelecimento da Rússia: potência que não quer mais se deixar atropelar e que é capaz de tomar decisões. Hoje, constato que a Rússia é, fundamentalmente, uma nação em estabilização, e só em estabilização, por mais que tantos pintem a Rússia como um lobo-mau.
Mas a verdadeira potência emergente, antes da Rússia, é a Alemanha. A Alemanha fez um caminho prodigioso, das dificuldades econômicas que tinha quando da reunificação até o restabelecimento econômico e, na sequência, a tomada de controle sobre todo o continente, nos últimos cinco anos. Tudo isso está aí para ser reinterpretado
A crise financeira não apenas demonstrou a solidez da Alemanha. Ela também revelou a capacidade da Alemanha para usar a crise da dívida para baixar a crista de todo o continente.
Se nos livramos da retórica arcaica da guerra fria, se paramos de sacudir o chocalho ideológico da democracia liberal e de seus valores, se se para de dar ouvidos ao blá-blá-blá europeísta, para observar a sequência em curso de modo a observar a sequência histórica em andamento, de modo bruto, quase como uma criança, em resumo, se se aceita ver que o rei está nu, contata-se que:
(1) ao longo dos últimos cinco últimos anos, a Alemanha tomou o controle do continente europeu no plano econômico e político; e que
(2) ao cabo desses mesmos cinco anos, a Europa já está virtualmente em guerra contra a Rússia!
Esse fenômeno simples é ocultado por uma dupla negação; dois países agem como ferrolhos para impedir que compreendamos a realidade do que se passa.
Primeiro, a França, que continua sem admitir que se pôs em estado de servidão voluntária, na relação com a Alemanha. Não pode fazer diferente, porque não admite plenamente o crescimento do poder da Alemanha e o fato de que não está no padrão que lhe permita controlar esse crescimento. Se há lição geopolítica a extrair da IIª Guerra Mundial, é que a França não consegue controlar a Alemanha; e que temos de reconhecer as imensas qualidades de organização e de disciplina econômica... e o não menos imenso potencial para a irracionalidade política.
Que a França recusa-se a ver a realidade alemã é uma evidência. Já há algum tempo venho falando de François Hollande como “vice-chanceler Hollande”. Pensando bem, de fato, ele é mais um simples “diretor de comunicação da chancelaria”. Hollande é nada. Alcança níveis excepcionais de impopularidade, que são efeito, em parte, do servilismo diante da Alemanha. François Hollande é desprezado como é, pelos franceses, porque é homem que obedece à Alemanha. Mas todas as elites francesas, jornalísticas e políticas, estão afundadas no mesmo processo de negação, de não ver.
 (...)

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Geopolítica das Crises que marcam a instabilidade sistêmica global


Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, 05/11/2015
 
Lucas Kerr Oliveira & Patrícia Freitas


A crise financeira de 2008-2009 foi seguida de uma crise econômica estrutural que ainda impacta a maioria dos países desenvolvidos, assim como muitos dos países emergentes e periféricos. Contudo, assim como na década pós-Crise de 1929, a consequência mais importante da atual crise econômica foi a abertura de uma verdadeira “temporada de crises políticas e geopolíticas” em todo o mundo. No nível local e regional nota-se grande diversidade de crises, desde as que são marcadas por manifestações e protestos contra os governos vigentes, até os casos de sangrentas guerras civis. No nível global, é marcante o aumento da rivalidade entre as grandes potências, especialmente entre as potências decadentes, progressivamente mais agressivas, e as potências emergentes.

Uma série de disputas poderiam ser consideradas como indicadores deste processo em pelo menos três grandes cenários: (I) na Ásia Oriental, envolvendo as disputas marítimas e estratégicas entre China e Japão, as crises na Península Coreana e no Mar do Sul da China; (II) no Leste Europeu e ex-URSS, em que as tensões envolvendo Rússia e OTAN tornaram-se críticas nas disputas entre Rússia e Geórgia e, especialmente na atual guerra civil na Ucrânia; e (III) no Grande Oriente Médio e Norte da África, com as crises iniciadas à partir da Primavera Árabe, e incluindo intensas guerras civis como a da Líbia, Síria e Iêmen.




No Norte da África, em contraposição à uma política anti-hegemônica adotada pelas potências emergentes nos últimos anos, potências tradicionais como a França aderiram a uma estratégia claramente neoimperialista, derrubando governos, ocupando e provocando guerras civis em países como Costa do Marfim, Mali, República Centro Africana e Líbia, apenas para defender os seus interesses econômicos mais básicos, como o acesso a petróleo e minérios. No Oriente Médio, observa-se a sobreposição de disputas regionais e globais, destacando-se, no nível regional a intensificação da disputa entre Irã e Arábia Saudita, torna-se patente nas guerras civis do Iêmen e da Síria, mesclando-se à polarização entre EUA e Rússia na região (KERR OLIVEIRA, PEREIRA BRITES & SILVA REIS, 2013).


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O apoio direto da Rússia ao governo sírio, na “Guerra ao Terror” contra o ISIS, permitiu que os russos rapidamente conquistassem o domínio do espaço aéreo e atacassem com precisão centenas de alvos dos rebeldes extremistas, utilizando desde mísseis Kh-25 e Kh-29 guiados por laser e bombas KAB-500S-E guiadas pela rede de satélites de posicionamento Glonass, até mísseis de cruzeiro de longo alcance da classe Klub, lançados de 1500km de distância pela frota do Mar Cáspio.

https://defencyclopedia.files.wordpress.com/2015/10/russian-missile-launch.gif?w=1000
Imagem: Ministério de Defesa da Rússia



 



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http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/41855/guerra+na+siria+washington+esta+num+beco+sem+saida+com+entrada+das+forcas+russas.shtml


No âmbito das relações internacionais esta exibição de força por parte da Rússia em apoio aos seus aliados no Oriente Médio, pode ser considerado mais um indicador de que o Sistema Internacional está se tornando Multipolar. Semelhantemente, o Sistema Internacional continua estruturalmente anárquico, no sentido realista, mas organizado a partir de uma distribuição de poder hierárquica-oligárquica. Agrega-se a isto, o aprofundamento da crise da hegemonia até então estabelecida, que parece coerente com distintos modelos explicativos, como o dos ciclos acumulação de capital e dominação de Giovanni Arrighi, ou dos ciclos de transição de poder e guerras globais de Rasler & Thompson. Mas há também fortes indícios que a atual crise ou transição se manifesta principalmente na forma de uma crise da governança global, ampliando a instabilidade e a incerteza (QUEDI MARTINS, 2012). Destarte, a manutenção da anarquia no Sistema Internacional e a polarização entre as grandes potências, marcada por uma multipolaridade oligárquica e desequilibrada e uma conjuntura de crise de governança, reforçam o comportamento dos Estados em busca de segurança para sobreviver em um ambiente internacional competitivo e ameaçador.








Resultado de imagem para Pré-Sal Segurança do Atlântico SulPara o Brasil, estas são variáveis centrais para que o país possa estabelecer uma estratégia de inserção internacional de longo prazo que assegure a sobrevivência do país em um mundo progressivamente mais interdependente, integrado e competitivo, mas ainda mais instável e inseguro.


A atual crise política enfrentada pelo Brasil está diretamente ligada à crise econômica, impactando os principais setores produtivos nacionais que impulsionaram o robusto ciclo de crescimento dos anos 2000, a saber, energia e petróleo, construção civil e de infraestrutura, indústria naval, e, ainda, a indústria de defesa. Contudo, a gravidade com que a instabilidade global influencia a política e a economia do país pode impactar seriamente o conjunto destas indústrias, especialmente a última, que tem como principal cliente o Estado.


No longo prazo, a indústria de defesa é vital para o atual processo de modernização estratégico e das capacidades defensivas do Brasil, central para garantir a soberania e satisfatória capacidade defensiva de seu território nacional. Também é uma indústria essencial devido à capacidade de inovação tecnológica e científica, central para o desenvolvimento das demais forças produtivas industriais, apresentando impactos econômicos e sociais como geração direta e indireta de empregos de elevada qualificação e salários, mostrando-se imprescindível para que o país consiga retomar o desenvolvimento econômico. Mostra-se relevante, ainda, para viabilizar a consolidação de cadeias produtivas mais intensivas em tecnologia e mais integradas no âmbito regional, viabilizando a integração das indústrias de defesa da América do Sul. Portanto, é uma indústria essencial não apenas para assegurar a capacidade estratégica do país de exercer sua autonomia no ambiente internacional, mas também de compartilhar novos processos de desenvolvimento e integração com o bloco dos países sul-americanos.

... that there will be a growinggap between energy supply and demand



Nos últimos anos a indústria de produtos de segurança e defesa no Brasil passou a ter relevância cada vez mais estratégica, resultando em considerável crescimento, particularmente no período de governo Lula. De acordo com o estudo FIPE realizado em agosto de 2015, entre 2009 e 2014, a indústria de defesa cresceu em média 9,44%. O mesmo estudo constata que nos últimos anos, cada real investido em programas de defesa gerou um multiplicador de 9,8 vezes em valor do PIB, sendo o segmento responsável por 3,7% do PIB do Brasil em 2014, movimentando cerca de R$ 202 bilhões em 2014. Estes dados são ainda mais significativos quando se considera que o Brasil tem investido apenas US$ 31,74 bilhões ou seja, somente 1,4% do seu PIB em defesa (SIPRI, 2014). Contudo, o corte orçamentário no ano de 2015 poderá significar um corte de mais 24,8% no valor da lei Orçamentária Anual, que já havia sido reduzido para R$ 22,6 bilhões, significando uma redução para R$ 17 bilhões de reais nesse ano. 

Segurança Nacional Blog SNB: Astros 2020 da Avibras Exército ...

A adoção de políticas como a inclusão da defesa como um setor estratégico para o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC-2), foi uma medida fundamental para garantir recursos para os Programas desenvolvidos pelas Forças Armadas, como o Satélite Geoestacionário Brasileiro (SGDC), PROSUB, PROSUPER, o Sistema Astros 2020, SISFRON, além da aquisição dos caças Gripen NG e da fabricação da aeronave construída no Brasil, o KC-390. Entretanto, a interrupção desses investimentos e os cortes orçamentária podem trazer não somente incerteza da continuação dos projetos em executados, como também impactos imediatos na economia das empresas envolvidas nesses projetos. Devido ao elevado risco tecnológico evolvido neste setor, existe não apenas a ameaça de paralização dos principais projetos de modernização de defesa, como o Sisfron e o Prosub, como, ainda, pior, o risco catastrófico de destruição da capacidade produtiva da indústria de defesa nacional, ou seja, de um novo ciclo de desindustrialização como o que marcou o país nos anos 1990.

Para que o país consiga superar a crise econômica e política, afastando o fantasma da desindustrialização, é necessário repensar as estratégias de desenvolvimento de suas indústrias inovadoras, de forma a assegurar a sobrevivência destas empresas, que via de regra dependem muito mais diretamente dos investimentos estatais do que das exportações. O Brasil tem hoje a chance de estar entre os países emergentes que conseguem assegurar sua defesa com seus próprios sistemas de alta tecnologia, mas corre o risco de assistir à desindustrialização de sua base produtivo-tecnológica e perder tal possibilidade. Tudo dependerá da prioridade com que a política industrial do setor de defesa será conduzida nos próximos anos.


BIBLIOGRAFIA

ABIMDE (2015). Estudo FIPEFundação Pesquisa Econômicas: Cadeia de Valor e Importância Socioeconômica do Complexo de Defesa e Segurança no Brasil. Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança. 12/08/3015. <http://www.abimde.org.br/downloads> .


ARRIGHI, G. (1996).  O Longo Século XX: dinheiro, poder e as origens de  nosso tempo . Ed. Contraponto: Rio  de Janeiro.


KERR OLIVEIRA, L.; PEREIRA BRITES, P. V. & SILVA REIS, J. A. (2013). A guerra proxy na Síria e as disputas estratégicas russo-estadunidenses no Oriente Médio. Boletim Mundorama, 20/09/2013. <http://mundorama.net/2013/09/20/a-guerra-proxy-na-siria-e-as-disputas-estrategicas-russo-estadunidenses-no-oriente-medio-por-lucas-kerr-de-oliveira-pedro-vinicius-pereira-brites-e-joao-arthur-da-silva-reis/> .


QUEDI MARTINS, J. M. (2013) [org.]. Relações Internacionais Contemporâneas 2012/2: estudos de caso em política externa e de segurança. 1. ed. (Série Cadernos ISAPE). Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia, ISAPE: Porto Alegre, RS.


RASLER, K. & THOMPSON, W. R. (2005).  Global War and the Political Economy os Structural  Change. p.  301-331.  In:  MIDLARSKY,  M.  I. (2005). [org].  Handbook  of  War  Studies  II.  4ª  ed.  The  University  of  Michigan  Press: Ann Arbor, Michigan. EUA.


SIPRI (2015). Military Expenditure Database. Stockholm International Peace Research Institute. Estocolmo, Suécia. <http://www.sipri.org/research/armaments/milex/milex_database> .



Prof. Dr. Lucas Kerr Oliveira, professor adjunto da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, UNILA.

Patrícia de Freitas, bacharel em Relações Internacionais e Integração pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana, UNILA



Fonte:

KERR OLIVEIRA, L. & FREITAS, P. (2015). Crises e Guerras que marcam a instabilidade sistêmica global: perspectivas para a Indústria Nacional de Defesa no Brasil. Mundorama,  Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, 05/11/2015. Brasília, DF. ISSN 2175-2052.   <mundorama.net/2015/11/05/crises-e-guerras-que-marcam-a-instabilidade-sistemica-global-perspectivas-para-a-industria-nacional-de-defesa-no-brasil-por-lucas-kerr/>
















http://www.planobrazil.com/wp-content/uploads/2015/10/Stratfor%E2%80%99s-analysis-of-an-expanded-Russian-air-campaign-into-Iraq-1.jpg
http://static.independent.co.uk/s3fs-public/styles/story_large/public/thumbnails/image/2015/10/13/08/Russian-cruise-missile.jpg
Foto: Ministério de Defesa da Rússia
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https://www.washingtonpost.com/graphics/world/russian-cruise-missile/







http://www.24news.ca/the-news/canada-news/105120-canadian-military-predicted-libya-would-descend-into-civil-war-if-foreign-countries-helped-overthrow-gaddafi












Há risco de guerra entre Ucrânia e Rússia, diz ministro ucraniano ...
Crise na Ucrânia
http://www.thedailysheeple.com/on-the-edge-of-war-the-latest-russian-and-ukraine-troop-movements_052014

deeper into chaos, the sound of war drums gets ever louder. Russian ...



https://www.eia.gov/beta/international/regions-topics.cfm?RegionTopicID=SCS

Zonas petrolíferas nas regiões disputadas do Mar do Sul da China

http://www.southchinasea.org/files/2011/08/EEZ-Claims-Oil-and-Gas-Resources.jpg







terça-feira, 28 de outubro de 2014

Geografia das Eleições 2014

Blog Geografia & Geopolítica, 28/10/2014

Geografia das Eleições 2014: 
uma análise da cartografia do voto e 
algumas considerações políticas para o Brasil


Neste segundo turno, a Presidenta Dilma (PT) foi reeleita com 51,64% dos votos válidos totais, contra 48,36% de Aécio Neves (PSDB). Assim como nas eleições de 2010, a análise da distribuição geográfica dos votos do 2o turno das eleições Presidenciais no Brasil tem gerado algumas polêmicas, muitas delas infundadas. A principal, deve-se à difusão de algumas interpretações bastante reducionistas, muito comuns na nossa grande imprensa, de que uma região ou outra votou em um candidato ou outro e, portanto, determinadas regiões seriam as "responsáveis" pela eleição de um candidato e a derrota de outro.

Importa lembrar que a interpretação dos resultados de uma eleição competitiva e intensamente disputada, é sempre objeto de controvérsias políticas, que, se mantidas dentro do respeito à pluralidade e à diversidade típicos do Brasil, pode colaborar para fortalecer a democracia. A difusão simplificada e reducionista de dados complexos, pode, em contrapartida, ser bastante danosa para nosso regime democrático e para o Estado brasileiro. Para analisarmos estas questões, apresentaremos aqui exemplos de como podemos representar a complexidade de uma eleição de forma simplificada, em mapas ou cartogramas gráficos que podem ajudar explicar ou confundir o cidadão.

A representação da realidade geográfica e política em mapas ou cartogramas sempre envolve a redução e a simplificação de uma realidade complexa e, muitas vezes, intangível. A representação gráfica de dados quantitativos em mapas ou cartogramas pode ser feita de diversas formas, dependendo de que aspecto dos dados se quer destacar ou omitir. No caso dos resultados eleitorais, a versão mais simples dos mapas difundidos em um primeiro momento pelos meios de comunicação foi a mais simples possível, como o mapa representado a seguir: 




Este padrão de mapa usa apenas duas cores, vermelho e azul, para representar a vitória de um ou outro partido por estado da federação. É muito parecido com o modelo predominantemente utilizado nas eleições nos Estados Unidos, onde a eleição é indireta, e, em muitos estados, o que importa é quem venceu, pois o vencedor "leva tudo", ou seja, fica com todos os representantes daquele distrito eleitoral para o colégio eleitoral nacional. 

Entretanto este mapa é completamente disfuncional para a realidade brasileira, onde a eleição para Presidente é direta e cada voto tem o mesmo valor, independente do estado. Assim, este tipo de mapa não permite ter uma ideia minimamente detalhada ou que se apresente como próxima da realidade do resultado total da eleição no país. A simplificação dos totais conforme a vitória por estado esconde uma série de detalhes, como o fato de que a Presidente Dilma não teve menos que 40% dos votos em nenhuma das grandes regiões do país e, ainda, que dentro dos estados existem grandes variações nestes percentuais por município. Também esconde o fato que alguns colégios eleitorais são muito maiores do que outros, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. Aos desavisados pode passar a errônea ideia de que todos os eleitores daquele estado votaram em um candidato e o outro não teve votos naquele mesmo estado. 

Para reduzir um pouco essa simplificação, o método mais comum é escalonar as cores em tons, criando uma micro-escala de dois tons de vermelho e dois de azul. 
Fonte: Estadão

Contudo, mantém-se o problema do uso de apenas duas cores, que pode levar à indução de um erro básico de interpretação visual dos resultados, já que a vitória percentual não representa os totais dos estados nem a diversidade dentro destes.

Uma solução interessante para superar este impasse e manter a representação dos votos conforme os distritos eleitorais estaduais é o uso de uma escala ponderada, com maior diversidade de cores, como no mapa a seguir:
 
Fonte: Thomas Conti

Uma representação gráfica alternativa, que busca valorizar a divisão do eleitorado dentro dos estados, destacando os percentuais de cada candidato dentro de cada unidade da federação, é esta a seguir: 

Autora: Amanda Dassié


Para visualizar os detalhes do desempenho dos dois candidatos dentro de cada estado, os mapas que dividem o resultado por município, ao invés de por estado, podem se mostrar bastante interessantes, como nos casos a seguir:

Fonte: G1

Fonte: Jornal O Globo

A principal vantagem deste tipo de mapa é que permite ver detalhes dentro dos estados. Por exemplo, é possível visualizar que municípios que tiveram grande crescimento econômico devido aos investimentos federais dos últimos anos, como o de Rio Grande (RS), em que foi criado um polo naval, tiveram maioria dos votos para o PT, enquanto regiões ricas e tradicionalmente conservadoras, como o interior de SP, tiveram maioria dos votos para o PSDB.

Na tentativa de diferenciar melhor o tamanho da população de cada município ou a diferença total entre os candidatos nos maiores municípios, outras alternativas podem ser as representações a seguir:

Fonte: Jornal Gazeta do Povo
Fonte: Estadão


O nível de detalhamento pode ser ampliado até o nível dos bairros das grandes cidades, como nos casos a seguir, das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro:

Fonte: Folha-UOL

Embora estes gráficos valorizem um pouco mas a população total das maiores cidades ou permitam ver detalhes dos municípios e bairros,  eles não permitem ver o total absoluto de votos que é a informação mais importante para se compreender o resultado de uma eleição deste tipo. 


Contudo, é possível manter a separação por estado e ainda  mostrar o total de votos absolutos, que nenhum dos mapas anteriores representa tão bem como em um cartograma gráfico do tipo disposto a seguir:

Eleições 2014: votação absoluta por estado
Fonte: Estadão


Neste caso, fica muito claro que a Presidenta Dilma teve votações expressivas em todo o país, em especial nos maiores colégios eleitorais do Brasil, o que acaba com um dos diversos mitos que vêem sendo difundidos à partir da interpretação equivocada de certos mapas. 

Comparando o mapa com os dados do TSE, nota-se, por exemplo, que a maior votação de Dilma foi no estado de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, onde dos 23,7 milhões de votos válidos, Dilma obteve mais de 8 milhões de votos, mais precisamente 8.488.383 de votos. Apesar da vitória de Aécio em São Paulo, a votação de Dilma em outros estados do sul e sudeste foi expressiva, com quase 6 milhões em Minas Gerais (que obteve 5.979.422 votos), onde Dilma venceu Aécio (5.428.821) e quase 4,5 milhões no Rio de Janeiro (4.488.183), onde Dilma também venceu Aécio (3.681.088). 

Ainda considerando os maiores colégios eleitorais, Dilma teve 5.059.228 votos na Bahia, contra 2.151.922 para Aécio, e quase 3 milhões no Rio Grande do Sul, onde Dilma obteve 2.997.360 votos, contra 3.452.355 para Aécio. Além disso, Dilma teve maioria absoluta em estados com colégios eleitorais de peso como Pernambuco (3.438.165), Ceará (3.522.225), Pará (2.103.829) e Maranhão (2.475.762) e Paraná (2.408.740) e obteve uma votação expressiva nos demais estados, com mais de um milhão de votos em diversos estados do norte (Amazonas), nordeste (Piauí, Paraíba, Rio Grande do Norte), do Centro-Oeste (Goiás) e do Sul (Santa Catarina). 

A comparação dos dados absolutos com os percentuais é interessante porque permite vislumbrar que mesmo em estados onde Dilma teve menor percentual de votos, como em Santa Catarina (35%), São Paulo  (36%) e Paraná (39%), a votação absoluta foi bastante significativa, pois obteve 1.353.808 votos em Santa Catarina, além dos já citados 2.408.740 no Paraná e 8.488.383 em São Paulo. Portanto, somando-se os três colégios eleitorais da região sul-sudeste em que Dilma obteve menor percentual de votos, representam mais de doze milhões de votos, mais precisamente 12.250.931 votos, ou seja, o dobro do que obteve em Minas Gerais ou na Bahia. 

Fonte: Rede Brasil Atual


Somando-se a totalidade dos votos que Dilma obteve nos sete estados das regiões Sul-Sudeste, nota-se que o total atinge mais de 26 milhões de votos, precisamente 26.627.802 votos, e somando-se a votação obtida nos 16 estados do conjunto das regiões Norte e Nordeste, Dilma obteve mais de 24 milhões de votos, especificamente 24.569.880 votos. Neste sentido, embora tenha tido maioria no Nordeste e Norte, Dilma não seria eleita sem a votação expressiva das regiões Sul e Sudeste. 

Estes dados nos permitem inferir, primeiramente, que os maiores colégios eleitorais do país continuam tendo um peso significativo na definição das eleições presidenciais, mas não definem as eleições sozinhos. Apesar da vantagem total de Dilma nos colégios eleitorais do Nordeste, fica claro também que uma única região não seria suficiente para elegê-la se não fossem as votações expressivas que recebeu no Sul e Sudeste. 

O problema do extremismo

Neste contexto, importa destacar que a reação de grupos extremistas ultra-conservadores que vem tentando deslegitimar o voto popular e a reeleição da Presidenta Dilma, mostra-se uma ameaça potencial para a Democracia no Brasil. Ainda mais grave é a ameaça representada por indivíduos anti-Brasil que foram eleitos, como a de um desesperado e desconhecido político de São Paulo, que veiculou a intenção de iniciar um movimento extremista separatista, apenas porque estava inconformado com a derrota do seu candidato nas eleições Federais.

É fundamental que o país não permita a propagação deste tipo de ideia anti-nacional absurda, claramente xenófoba e extremista, que ameaça a integridade territorial do Brasil. Esta modalidade de manifestação, ainda mais vinda de um representante eleito, não poderia jamais ser interpretada como uma brincadeira de um sujeito que perdeu a sanidade. Este é caso grave, de ataque à legalidade e à Constituição, que deve ser levado à Justiça e o réu julgado com todo o rigor da lei.  

Cumpre lembrar que a Constituição Federal estabelece, logo em seu 1º artigo, que acima de tudo está a união indissolúvel de estados e municípios:

"Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
  I - a soberania;  
  II - a cidadania; 
  III - a dignidade da pessoa humana;  
  IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;  
  V - o pluralismo político.  
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição."

Resta lutarmos para que essa suposta "divisão" geográfica do voto no país, propagada de forma irresponsável por parte da imprensa e de alguns indivíduos, nunca se materialize na forma de reações políticas extremistas. A integridade territorial é basilar para assegurar o desenvolvimento nacional, a geração de emprego e a distribuição de renda, sendo também fundamental para que o país possa defender sua soberania e, ainda, para que o país possa se engajar na liderança da integração regional sul-americana. A força geopolítica do Brasil reside justamente em sua diversidade e unidade, portanto não podemos permitir que os inimigos do Brasil tentem apagar nossa diversidade, nem fragmentar nossa unidade. As eleições e o jogo democrático são apenas algumas das formas que encontramos de equilibrar as disputas políticas, assegurando a pluralidade com a manutenção da unidade nacional. Sem união, sem integridade territorial, uma nação perde sua Soberania. Por isso, é fundamental que tenhamos em mente a necessidade estratégica de assegurar a integridade territorial e a Soberania do Brasil, pois sem Soberania nenhum Estado consegue garantir a Democracia, a Cidadania ou a Liberdade do seu povo. 


Lucas Kerr Oliveira