Mostrando postagens com marcador Guerra Civil na Síria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guerra Civil na Síria. Mostrar todas as postagens

sábado, 22 de agosto de 2020

"A Explosão em Beirut e a Geopolítica do Líbano e da Síria" Debate ao vivo com Issam Rabih Menem, Ana Karolina Morais Silva e Lucas Kerr Oliveira

Debate Online ao vivo: ▶️
💥 "A explosão em Beirute e a Geopolítica do Líbano e da Síria"💥

Sábado, 22/08/2020, à partir das 16h00 (Brasília / Buenos Aires / GMT-03), no canal do NEEGI no Youtube ▶️


Participação do coordenador do NEEGI, prof. Dr. Lucas Kerr Oliveira, e os também pesquisadores do núcleo, Ana Karolina Morais (PPGICAL/UNILA) e Issam Menem (PPGEEI/UFRGS).








Debate

"A Explosão em Beirut e a Geopolítica do Líbano e da Síria", no contexto dos conflitos do Oriente Médio, com Issam Rabih Menem, Ana Karolina Morais Silva e Lucas Kerr Oliveira
📝

Currículo Lattes dos convidados:
Lucas Kerr de Oliveira: http://lattes.cnpq.br/4584511557852332
Ana Karolina Morais: http://lattes.cnpq.br/2706723942205081
Issam Menem: http://lattes.cnpq.br/3659401873409548

Vídeo transmitido ao vivo em 22/08/2020 como parte das atividades de videoconferências, palestras, debates e minicursos online, desenvolvidas pelo Núcleo de Estudos Estratégicos, Geopolítica e Integração (NEEGI), com organização e apoio dos projetos de extensão universitária do "Observatório dos BRICS e das Relações Sul-Sul", do "Observatório Geopolítico Latino-Americano da Epidemia do Coronavírus", do "Observatório Latino-Americano da Geopolítica Energética" do "Observatório da Integração Regional Sul-Americana", vinculados ao NEEGI, contando com o apoio dos extensionistas Bruno Trujillo, Luiza Maria e Willian Brito Lisboa.



A Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) apoia os projetos de extensão universitária destacando que as opiniões expressas pelos debatedores e demais participantes não reflete ou representa necessariamente as opiniões e posições institucionais da universidade. As opiniões dos debatedores não representam necessariamente as opiniões das Instituições das quais eles participam ou colaboram.



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Geopolítica das Crises que marcam a instabilidade sistêmica global


Mundorama - Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, 05/11/2015
 
Lucas Kerr Oliveira & Patrícia Freitas


A crise financeira de 2008-2009 foi seguida de uma crise econômica estrutural que ainda impacta a maioria dos países desenvolvidos, assim como muitos dos países emergentes e periféricos. Contudo, assim como na década pós-Crise de 1929, a consequência mais importante da atual crise econômica foi a abertura de uma verdadeira “temporada de crises políticas e geopolíticas” em todo o mundo. No nível local e regional nota-se grande diversidade de crises, desde as que são marcadas por manifestações e protestos contra os governos vigentes, até os casos de sangrentas guerras civis. No nível global, é marcante o aumento da rivalidade entre as grandes potências, especialmente entre as potências decadentes, progressivamente mais agressivas, e as potências emergentes.

Uma série de disputas poderiam ser consideradas como indicadores deste processo em pelo menos três grandes cenários: (I) na Ásia Oriental, envolvendo as disputas marítimas e estratégicas entre China e Japão, as crises na Península Coreana e no Mar do Sul da China; (II) no Leste Europeu e ex-URSS, em que as tensões envolvendo Rússia e OTAN tornaram-se críticas nas disputas entre Rússia e Geórgia e, especialmente na atual guerra civil na Ucrânia; e (III) no Grande Oriente Médio e Norte da África, com as crises iniciadas à partir da Primavera Árabe, e incluindo intensas guerras civis como a da Líbia, Síria e Iêmen.




No Norte da África, em contraposição à uma política anti-hegemônica adotada pelas potências emergentes nos últimos anos, potências tradicionais como a França aderiram a uma estratégia claramente neoimperialista, derrubando governos, ocupando e provocando guerras civis em países como Costa do Marfim, Mali, República Centro Africana e Líbia, apenas para defender os seus interesses econômicos mais básicos, como o acesso a petróleo e minérios. No Oriente Médio, observa-se a sobreposição de disputas regionais e globais, destacando-se, no nível regional a intensificação da disputa entre Irã e Arábia Saudita, torna-se patente nas guerras civis do Iêmen e da Síria, mesclando-se à polarização entre EUA e Rússia na região (KERR OLIVEIRA, PEREIRA BRITES & SILVA REIS, 2013).


http://www.limesonline.com/wp-content/uploads/2013/10/la_guerra_di_Siria_820_913.jpg


http://www.energyfuse.org/wp-content/uploads/2015/10/isis.png



O apoio direto da Rússia ao governo sírio, na “Guerra ao Terror” contra o ISIS, permitiu que os russos rapidamente conquistassem o domínio do espaço aéreo e atacassem com precisão centenas de alvos dos rebeldes extremistas, utilizando desde mísseis Kh-25 e Kh-29 guiados por laser e bombas KAB-500S-E guiadas pela rede de satélites de posicionamento Glonass, até mísseis de cruzeiro de longo alcance da classe Klub, lançados de 1500km de distância pela frota do Mar Cáspio.

https://defencyclopedia.files.wordpress.com/2015/10/russian-missile-launch.gif?w=1000
Imagem: Ministério de Defesa da Rússia



 



http://www.portaldeangola.com/wp-content/uploads/2015/11/400x225_316525.jpg

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/41855/guerra+na+siria+washington+esta+num+beco+sem+saida+com+entrada+das+forcas+russas.shtml


No âmbito das relações internacionais esta exibição de força por parte da Rússia em apoio aos seus aliados no Oriente Médio, pode ser considerado mais um indicador de que o Sistema Internacional está se tornando Multipolar. Semelhantemente, o Sistema Internacional continua estruturalmente anárquico, no sentido realista, mas organizado a partir de uma distribuição de poder hierárquica-oligárquica. Agrega-se a isto, o aprofundamento da crise da hegemonia até então estabelecida, que parece coerente com distintos modelos explicativos, como o dos ciclos acumulação de capital e dominação de Giovanni Arrighi, ou dos ciclos de transição de poder e guerras globais de Rasler & Thompson. Mas há também fortes indícios que a atual crise ou transição se manifesta principalmente na forma de uma crise da governança global, ampliando a instabilidade e a incerteza (QUEDI MARTINS, 2012). Destarte, a manutenção da anarquia no Sistema Internacional e a polarização entre as grandes potências, marcada por uma multipolaridade oligárquica e desequilibrada e uma conjuntura de crise de governança, reforçam o comportamento dos Estados em busca de segurança para sobreviver em um ambiente internacional competitivo e ameaçador.








Resultado de imagem para Pré-Sal Segurança do Atlântico SulPara o Brasil, estas são variáveis centrais para que o país possa estabelecer uma estratégia de inserção internacional de longo prazo que assegure a sobrevivência do país em um mundo progressivamente mais interdependente, integrado e competitivo, mas ainda mais instável e inseguro.


A atual crise política enfrentada pelo Brasil está diretamente ligada à crise econômica, impactando os principais setores produtivos nacionais que impulsionaram o robusto ciclo de crescimento dos anos 2000, a saber, energia e petróleo, construção civil e de infraestrutura, indústria naval, e, ainda, a indústria de defesa. Contudo, a gravidade com que a instabilidade global influencia a política e a economia do país pode impactar seriamente o conjunto destas indústrias, especialmente a última, que tem como principal cliente o Estado.


No longo prazo, a indústria de defesa é vital para o atual processo de modernização estratégico e das capacidades defensivas do Brasil, central para garantir a soberania e satisfatória capacidade defensiva de seu território nacional. Também é uma indústria essencial devido à capacidade de inovação tecnológica e científica, central para o desenvolvimento das demais forças produtivas industriais, apresentando impactos econômicos e sociais como geração direta e indireta de empregos de elevada qualificação e salários, mostrando-se imprescindível para que o país consiga retomar o desenvolvimento econômico. Mostra-se relevante, ainda, para viabilizar a consolidação de cadeias produtivas mais intensivas em tecnologia e mais integradas no âmbito regional, viabilizando a integração das indústrias de defesa da América do Sul. Portanto, é uma indústria essencial não apenas para assegurar a capacidade estratégica do país de exercer sua autonomia no ambiente internacional, mas também de compartilhar novos processos de desenvolvimento e integração com o bloco dos países sul-americanos.

... that there will be a growinggap between energy supply and demand



Nos últimos anos a indústria de produtos de segurança e defesa no Brasil passou a ter relevância cada vez mais estratégica, resultando em considerável crescimento, particularmente no período de governo Lula. De acordo com o estudo FIPE realizado em agosto de 2015, entre 2009 e 2014, a indústria de defesa cresceu em média 9,44%. O mesmo estudo constata que nos últimos anos, cada real investido em programas de defesa gerou um multiplicador de 9,8 vezes em valor do PIB, sendo o segmento responsável por 3,7% do PIB do Brasil em 2014, movimentando cerca de R$ 202 bilhões em 2014. Estes dados são ainda mais significativos quando se considera que o Brasil tem investido apenas US$ 31,74 bilhões ou seja, somente 1,4% do seu PIB em defesa (SIPRI, 2014). Contudo, o corte orçamentário no ano de 2015 poderá significar um corte de mais 24,8% no valor da lei Orçamentária Anual, que já havia sido reduzido para R$ 22,6 bilhões, significando uma redução para R$ 17 bilhões de reais nesse ano. 

Segurança Nacional Blog SNB: Astros 2020 da Avibras Exército ...

A adoção de políticas como a inclusão da defesa como um setor estratégico para o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC-2), foi uma medida fundamental para garantir recursos para os Programas desenvolvidos pelas Forças Armadas, como o Satélite Geoestacionário Brasileiro (SGDC), PROSUB, PROSUPER, o Sistema Astros 2020, SISFRON, além da aquisição dos caças Gripen NG e da fabricação da aeronave construída no Brasil, o KC-390. Entretanto, a interrupção desses investimentos e os cortes orçamentária podem trazer não somente incerteza da continuação dos projetos em executados, como também impactos imediatos na economia das empresas envolvidas nesses projetos. Devido ao elevado risco tecnológico evolvido neste setor, existe não apenas a ameaça de paralização dos principais projetos de modernização de defesa, como o Sisfron e o Prosub, como, ainda, pior, o risco catastrófico de destruição da capacidade produtiva da indústria de defesa nacional, ou seja, de um novo ciclo de desindustrialização como o que marcou o país nos anos 1990.

Para que o país consiga superar a crise econômica e política, afastando o fantasma da desindustrialização, é necessário repensar as estratégias de desenvolvimento de suas indústrias inovadoras, de forma a assegurar a sobrevivência destas empresas, que via de regra dependem muito mais diretamente dos investimentos estatais do que das exportações. O Brasil tem hoje a chance de estar entre os países emergentes que conseguem assegurar sua defesa com seus próprios sistemas de alta tecnologia, mas corre o risco de assistir à desindustrialização de sua base produtivo-tecnológica e perder tal possibilidade. Tudo dependerá da prioridade com que a política industrial do setor de defesa será conduzida nos próximos anos.


BIBLIOGRAFIA

ABIMDE (2015). Estudo FIPEFundação Pesquisa Econômicas: Cadeia de Valor e Importância Socioeconômica do Complexo de Defesa e Segurança no Brasil. Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança. 12/08/3015. <http://www.abimde.org.br/downloads> .


ARRIGHI, G. (1996).  O Longo Século XX: dinheiro, poder e as origens de  nosso tempo . Ed. Contraponto: Rio  de Janeiro.


KERR OLIVEIRA, L.; PEREIRA BRITES, P. V. & SILVA REIS, J. A. (2013). A guerra proxy na Síria e as disputas estratégicas russo-estadunidenses no Oriente Médio. Boletim Mundorama, 20/09/2013. <http://mundorama.net/2013/09/20/a-guerra-proxy-na-siria-e-as-disputas-estrategicas-russo-estadunidenses-no-oriente-medio-por-lucas-kerr-de-oliveira-pedro-vinicius-pereira-brites-e-joao-arthur-da-silva-reis/> .


QUEDI MARTINS, J. M. (2013) [org.]. Relações Internacionais Contemporâneas 2012/2: estudos de caso em política externa e de segurança. 1. ed. (Série Cadernos ISAPE). Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia, ISAPE: Porto Alegre, RS.


RASLER, K. & THOMPSON, W. R. (2005).  Global War and the Political Economy os Structural  Change. p.  301-331.  In:  MIDLARSKY,  M.  I. (2005). [org].  Handbook  of  War  Studies  II.  4ª  ed.  The  University  of  Michigan  Press: Ann Arbor, Michigan. EUA.


SIPRI (2015). Military Expenditure Database. Stockholm International Peace Research Institute. Estocolmo, Suécia. <http://www.sipri.org/research/armaments/milex/milex_database> .



Prof. Dr. Lucas Kerr Oliveira, professor adjunto da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, UNILA.

Patrícia de Freitas, bacharel em Relações Internacionais e Integração pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana, UNILA



Fonte:

KERR OLIVEIRA, L. & FREITAS, P. (2015). Crises e Guerras que marcam a instabilidade sistêmica global: perspectivas para a Indústria Nacional de Defesa no Brasil. Mundorama,  Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, 05/11/2015. Brasília, DF. ISSN 2175-2052.   <mundorama.net/2015/11/05/crises-e-guerras-que-marcam-a-instabilidade-sistemica-global-perspectivas-para-a-industria-nacional-de-defesa-no-brasil-por-lucas-kerr/>
















http://www.planobrazil.com/wp-content/uploads/2015/10/Stratfor%E2%80%99s-analysis-of-an-expanded-Russian-air-campaign-into-Iraq-1.jpg
http://static.independent.co.uk/s3fs-public/styles/story_large/public/thumbnails/image/2015/10/13/08/Russian-cruise-missile.jpg
Foto: Ministério de Defesa da Rússia
http://pop.h-cdn.co/assets/15/41/320x160/landscape-1444240593-mzojpd.gif 











https://www.washingtonpost.com/graphics/world/russian-cruise-missile/







http://www.24news.ca/the-news/canada-news/105120-canadian-military-predicted-libya-would-descend-into-civil-war-if-foreign-countries-helped-overthrow-gaddafi












Há risco de guerra entre Ucrânia e Rússia, diz ministro ucraniano ...
Crise na Ucrânia
http://www.thedailysheeple.com/on-the-edge-of-war-the-latest-russian-and-ukraine-troop-movements_052014

deeper into chaos, the sound of war drums gets ever louder. Russian ...



https://www.eia.gov/beta/international/regions-topics.cfm?RegionTopicID=SCS

Zonas petrolíferas nas regiões disputadas do Mar do Sul da China

http://www.southchinasea.org/files/2011/08/EEZ-Claims-Oil-and-Gas-Resources.jpg







quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A guerra proxy na Síria e as disputas estratégicas russo-estadunidenses no Oriente Médio

Mundorama, 20/09/2013

A guerra proxy na Síria e as disputas estratégicas russo-estadunidenses no Oriente Médio

 Lucas Kerr Oliveira, Pedro V. P. Brites & João Arthur Silva Reis

O acordo entre Rússia e Estados Unidos para a destruição das armas químicas sírias, anunciado dia 14 de setembro, pode, ao menos por ora, impedir uma nova intervenção estadunidense no Oriente Médio. O arranjo estabelece que o regime de Bashar Al-Assad entregue seu arsenal químico para o controle internacional e que este seja destruído até a metade de 2014 (RiaNovosti, 2013). O acordo proposto pela Rússia em 09 de setembro arrefeceu a escalada da mobilização militar dos EUA. O sucesso da iniciativa diplomática russa, que em grande medida deve-se ao envio de uma esquadra com considerável poder de fogo no Mediterrâneo, pode ser considerado uma inflexão na situação regional. Ao impedir o ataque à Síria, foi freada uma tendência que se mantinha desde a queda de Kaddafi em 2011: o avanço quase sem resistência dos interesses dos EUA e de seus aliados no Oriente Médio.

A guerra na Síria teve início a partir de uma escalada de violência, que começou com os protestos de 2011, pouco depois do início da “Primavera Árabe”. A violência das manifestações aumentou progressivamente, com crescente número de mortos, à medida que rebeldes armados aproveitaram-se da situação para atacar o governo instituído. Importa destacar que a “oposição” é formada por diferentes facções de rebeldes, inclusive com rivalidades entre si. Enquanto algumas facções são essencialmente étnicas, como os curdos sírios, outras são formadas por grupos religiosos conservadores e fundamentalistas, além de grupos como o Exército Sírio Livre, que inclui desertores das forças armadas nacionais e recebem apoio turco. Bandos armados mais radicais, como a Al-Nusra, ligada à Al-Qaeda, recebem apoio saudita e inclui grandes contingentes de mercenários líbios e chechenos. Este é o principal indício de que realmente está em andamento uma guerra proxy de diversos atores, entre eles Arábia Saudita e Turquia, contra a Síria.

Os Estados Unidos adotaram, desde o princípio, uma postura de condenação ao regime sírio e apoio aos rebeldes. Entretanto, apesar do suporte dado pela OTAN e pela CIA aos rebeldes – via Turquia e Jordânia –, os EUA não conseguiram obter a renúncia ou a capitulação do regime de Assad (Lubold, 2013). Entretanto, em 2012, Obama afirmou que os EUA só interviriam na Síria se o regime de Assad ultrapassasse o que ele chamou de “linha vermelha”, ou seja, utilizasse armas químicas ou biológicas.

Após o incidente de 21 de agosto, em que ocorreu o uso de armas químicas, o governo americano declarou que iria intervir militarmente na Síria, à revelia do Conselho de Segurança da ONU, mesmo que a comissão das Nações Unidas não tenha conseguido identificar o autor dos ataques (ONU, 2013), O Presidente americano, porém, transferiu para o Congresso a responsabilidade final de aprovar ou não a intervenção, que, a princípio, seria uma ação limitada, restrita a alvos específicos. Apesar do apoio incondicional da França, o veto do parlamento britânico à intervenção representou um revés significativo para a estratégia dos EUA. Além disso, na cúpula do G-20 em São Petersburgo ficou evidente o relativo isolamento americano, já que boa parte dos países presentes se opôs à ação militar.

Nesse contexto, a posição russa foi a mais assertiva. O anuncio do envio de navios do Mar Negro, do Norte e do Pacífico para o Mediterrâneo leste, foi um claro sinal de que a Rússia não toleraria um ataque à Síria, tradicional aliado do país. Em 11 de setembro, havia 8 navios russos na região, enquanto os EUA, por sua vez, contavam com 6 vasos de superfície, além de uma série de bases aéreas e navais no entorno. Apesar da evidente assimetria logística em favor dos Estados Unidos, não há grande discrepância na capacidade destrutiva mútua das duas esquadras. Trata-se de uma correlação surpreendente, dada a superioridade técnica da marinha estadunidense. Esse relativo equilíbrio de forças demonstra que o projeto da US Navy, ainda da década de 1990, de privilegiar a capacidade de ataque à terra, deixou-a relativamente vulnerável diante de outra marinha de guerra (Martins, 2013). Portanto, a presença da marinha russa no Mediterrâneo não teve caráter meramente simbólico, mas sim de dissuasão efetiva, ao demonstrar a possibilidade de escalada do conflito em caso de intervenção americana.

A presença das marinhas americana e russa na região reflete a importância geoestratégica do Oriente Médio para os dois países. Os múltiplos interesses estadunidenses na região incluem, principalmente, o controle geopolítico do petróleo e a defesa de seus aliados regionais. Nas duas últimas décadas ganhou força o projeto neoconservador de remodelar o mapa do Grande Oriente Médio em bases étnico-religiosas (Peters, 2006). A iniciativa de fragmentar a maior parte dos Estados Nacionais da região através de uma guerra permanente, tudo indica, começou com a balcanização do Iraque, Líbia e Síria, sendo o Irã um dos possíveis próximos alvos. Tal projeto aproxima os interesses dos neocons estadunidenses aos dos wahhabitas sauditas, que declaram a pretensão de liderar um grande califado regional petroexportador de maioria sunita, capaz de competir com o petróleo russo. Para isso, seria preciso viabilizar uma nova rede de oleodutos alternativa ao escoamento através do Estreito de Ormuz, sob a liderança saudita.

Para a Rússia é fundamental sustentar o equilíbrio de poder no Oriente Médio, mantendo os únicos aliados que lhe restaram na região, o Irã e a Síria, onde se localiza o Porto de Tartus, a única base naval russa de águas quentes fora de seu território. A possível balcanização destes aliados não ameaça apenas os interesses russos na região, mas influencia diretamente na estabilidade do Cáucaso. Principalmente porque há muitos chechenos entre as forças rebeldes sírias, o que fortalece o movimento separatista na Chechênia e Daguestão, um claro problema de segurança nacional para a Rússia. Portanto, da perspectiva russa, combater os rebeldes sírios seria uma forma de enfraquecer os radicais chechenos baseados no exterior (Hill, 2013). Assim, compreende-se que a oposição russa à intervenção dos EUA tem motivações mais profundas do que a simples defesa de um regime aliado.

Cabe destacar que a resolução da guerra na Síria ainda parece bastante distante. Mesmo se o acordo para a retirada das armas químicas se efetivar, isso não garante a estabilização do país e nem previne uma nova futura escalada das tensões entre as potências extrarregionais. Além disso, a evolução da crise na Síria será vital para o jogo político doméstico nos Estados Unidos. Após endurecer a retórica, a despeito da oposição da opinião pública à intervenção, o governo Obama teve de recuar diante da proposta do governo Putin, o que pode emparedar ainda mais o governo democrata. Nesse sentido, as disputas internas sobre o projeto americano para o Oriente Médio, bem como a reação de Rússia e China, parecem ensejar uma instabilidade ainda maior na região nos próximos anos.

Referências Bibliográficas
BINNIE, Jeremy (2013). “Syrian militant group swears allegiance to Al-Qaeda”. IHS Jane’s Defence Weekly, 10 de abril de 2013. <http://www.janes.com/article/11900/syrian-militant-group-swears-allegiance-to-al-qaeda>Acesso em 16 de setembro de 2013.

HILL, Fiona (2013). “The Real Reason Putin Supports Assad”. Foreign Affairs, 25 de março de 2013. <http://www.foreignaffairs.com/articles/139079/fiona-hill/the-real-reason-putin-supports-assad> Acesso em 16 de setembro de 2013.

LUBOLD, Gordon (2013). “Is Anyone In Charge Of U.S. Syria Policy?” Foreign Policy, 20 de junho de 2013. <http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/06/20/who_is_in_charge_of_us_syria_policy>Acesso em 16 de setembro de 2013.

MARTINS, José M. Q. (2013). Painel Síria: Escalada ou Reequilíbrio? Apresentação realizada em 12 de setembro de 2013. FCE, Ufrgs, Porto Alegre, RS.

ONU (2013). Report on the Alleged Use of Chemical Weapons in the Ghouta Area of Damascus on 21 August 2013. United Nations Mission to Investigate Allegations of the Use of Chemical Weapons in the Syrian Arab Republic. Organização das Nações Unidas. <http://www.un.org/disarmament/content/slideshow/Secretary_General_Report_of_CW_Investigation.pdf> Acesso em 17 de setembro de 2013.

PETERS, Ralph (2006). “Blood borders: How a better Middle East would look”. Armed Forces Journal, Junho de 2006. <http://armedforcesjournal.com/archive/issue/2006/06/toc> Acesso em 15 de setembro de 2013.

RIA Novosti (2013). Russia, US Agree Syria Chemical Weapons Deal in Geneva. RIA Novosti, 14 de setembro de 2013. <http://en.rian.ru/russia/20130914/183438364/Russia-US-Agree-Syria-Chemical-Weapons-Deal-in-Geneva.html> Acesso em 16 de setembro de 2013.
_________________________________

Lucas Kerr de Oliveira é professor e coordenador do curso de Relações Internacionais e Integração da Universidade Federal da Integração Latino-Americana – UNILA. Doutor em Ciência Política e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
Pedro Vinícius Pereira Brites é Diretor-Geral do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia – ISAPE. Mestrando em Estudos Estratégicos Internacionais e Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES.
João Arthur da Silva Reis é Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Pesquisador colaborador do Centro de Estudos Internacionais sobre Governo – CEGOV-UFRGS e do ISAPE.

_________________________________

Fonte:

KERR-OLIVEIRA, Lucas; BRITES, Pedro V. P. & REIS, João A. S. (2013). A guerra proxy na Síria e as disputas estratégicas russo-estadunidenses no Oriente Médio. Mundorama, 20/09/2013. Mundorama, Divulgação Científica em Relações Internacionais, ISSN 2175-2052. <http://mundorama.net/2013/09/20/a-guerra-proxy-na-siria-e-as-disputas-estrategicas-russo-estadunidenses-no-oriente-medio-por-lucas-kerr-de-oliveira-pedro-vinicius-pereira-brites-e-joao-arthur-da-silva-reis/