Jornal Público, 09/01/2011
África
Sudão: Divórcio de risco no Sul e no Norte
Jorge Almeida Fernandes
O desfecho do referendo do Sudão do Sul vai ser a secessão. Nascem dois países. Ambos correm riscos de desintegração. A oportunidade de paz está num acordo sobre a renda do petróleo. Este está no Sul e tem de ser exportado pelo Norte. A China, principal interessado, pode ser o mediador. A água do Nilo e o petróleo determinaram a sua história.
Dois novos Estados vão nascer em África. No Sudão do Sul começa amanhã (até 15) um referendo sobre a independência. O resultado é certo: secessão. O problema não é o previsível caos da votação: é “o dia seguinte”. Uns falam em “divórcio à checa”, outros em risco de guerra e desintegração. A independência terá de esperar por Julho, que é também a data limite para o decisivo acordo sobre o petróleo.
Por sua vez, o Norte, que sempre comandou, tornar-se-á num Estado pobre e instável se perder o Sul. A secessão é descrita em Cartum como uma “conspiração sionista” patrocinada pelos americanos. O Presidente Omar al-Bashir, que nos últimos tempos tem tentado seduzir o Sul, teme um golpe de Estado que levaria ao poder o partido islamista. Os outros focos de guerra permanecem activos ou prontos a reacender-se: do Darfur às montanhas Nuba.
Os optimistas dizem que a longa tragédia do Sudão – mais de quatro milhões de mortos em guerras civis desde a independência, em 1956 – torna difícil imaginar um futuro pior. E há o argumento da razão: se os actores forem racionais, uma nova guerra é impensável, pois o petróleo representa 95 por cento das receitas do Sul e 60 por cento das do Norte e só o podem explorar em conjunto. Oitenta por cento da produção está no Sul, mas é exportada pelo Norte, já que o Sul não tem acesso ao mar. Estão condenados a chegar a acordo, sob pena de suicídio.