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sexta-feira, 4 de março de 2022

Geopolítica da Guerra na Ucrânia - entrevista com o professor Lucas Kerr-Oliveira

 

 

 

Estamos acompanhando diariamente as notícias sobre a situação da Ucrânia e os ataques da Rússia. Mas você sabe quais são os verdadeiros motivos que levaram a esse conflito? Neste episódio do ¿Qué Pasa?, o bate-papo é com o professor Lucas Kerr Oliveira, do curso de Relações Internacionais e Integração da UNILA, que nos dá um panorama histórico da Ucrânia e sua relação com a Rússia, fala sobre os recentes ataques e os possíveis impactos para a América Latina. Lucas Kerr-Oliveira 

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Análise de Conjuntura e Debate da OfChiLA : A AUKUS e a Grande Estratégia da União Européia e do Reino Unido para a Ásia


 

 

 

A Oficina de Estudos sobre China e Leste Asiático é uma atividade de extensão da UFRGS, organizada por um grupo de alunos de graduação e pós-graduação em Relações Internacionais e Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Nesta quinta-feira, dia 30/09, às 18:30, o encontro virtual terá os seguintes temas: 

 Debate de conjuntura: A nova aliança AUKUS por Lucas Mendes Costa

Debate principal: União Europeia/Reino Unido e sua Grande Estratégia para a Ásia (Tilt to Asia) por Guilherme Thudium e Erik Ribeiro 

Mediador: João Chiarelli 

 

Lucas Mendes Costa é graduado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mestrando pela Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT) e curador do projeto Geopolítica Hoje (@geopoliticahoje) 

 *Para a emissão de certificado de participação e horas complementares, é obrigatório o preenchimento do formulário que será colocado como comentário fixado no chat desta transmissão Também, aproveitamos para divulgar o lançamento das redes sociais da OfChiLA, e convidamos todas e todos para nos acompanharem no Instagram, Twitter e YouTube: https://linktr.ee/ofchila​

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

"Competição Estratégica China-EUA" : Palestra e Debate com Andrés Ferrari e Elias Jabbour | Palestra de abertura da OfChiLA 2021/2

 

 

 

 

A Oficina de Estudos sobre China e Leste Asiático é uma atividade de extensão da UFRGS, organizada por um grupo de alunos de graduação e pós-graduação em Relações Internacionais e Estudos Estratégicos Internacionais da universidade. 

 Nesta quinta-feira, dia 12/08, às 18:30, o encontro virtual terá o seguinte tema: Competição Estratégica China-EUA por Andrés Ferrari e Elias Jabbour Mediador: Erik Ribeiro 

 

O Dr. Andrés Ferrari é Professor Adjunto do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS e Concursado no Núcleo de Estudos Internacionais da UFRJ. É graduado em economia pela Universidad de Buenos Aires, Mestre em Ciência Econômica pela UNICAMP e Doutor em Economia do desenvolvimento pela UFRGS. Suas áreas de Pesquisa são: desenvolvimento, modelo neoliberal, história argentina, poder global e geopolítica e relações internacionais.

O Dr. Elias Jabbour é Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE-UERJ), do Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas (PPGCE-FCE-UERJ) e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI-UERJ) e Subchefe do Departamento de Evolução Econômica da FCE-UERJ e membro do Conselho Consultivo da Sub-reitoria de Extensão e Cultura - SR - 3 - da UERJ. É graduado, Mestre e Doutor em Geografia pela USP. Suas áreas de Pesquisa são Geografia e Economia com ênfase em Geografia Humana e Econômica, Economia Política, Economia Política Internacional e Planejamento Econômico, atuando principalmente nos seguintes temas: China, Categorias de Transição ao Socialismo, Estratégias e Experiências Nacionais e Comparadas de Desenvolvimento, Categoria Marxista de Formação Econômico-Social e Pensamento Independente de Ignácio Rangel. É autor do livro "China: Socialismo e desenvolvimento, sete décadas depois".

segunda-feira, 30 de março de 2020

Um Fundo para enfrentar o Coronavirus, por Luiz Carlos Bresser-Pereira


Fundo do coronavirus

Luiz Carlos Bresser-Pereira


Como evitar a crise?


No Valor de 26.3, o excelente jornalista Ribamar de Oliveira fez uma análise cuidadosa do provável efeito fiscal do coronavírus em seu artigo e perguntou: "Os EUA podem emitir moeda. E o Brasil?" Dada a paralisação das atividades econômicas, ninguém sabe com certeza qual será a queda da receita tributária e do PIB, porque esse resultado depende da profundidade e extensão no tempo das medidas de quarentena que estão sendo adotadas.

Hoje já há um razoável consenso que o crescimento do PIB será negativo em 2020. E que o Estado brasileiro terá que fazer gastos elevados para combater a doença e limitar a recessão.

Diante disto, o jornalista informa que "teve acesso a uma projeção preliminar que aponta para perda de R$ 70 bilhões para a arrecadação do governo federal neste ano, na comparação com o que estava programado no Orçamento."

Como evitar a crise?


Nos Estados Unidos o presidente do banco central americano afirmou que "o Fed fará tudo o que for necessário para evitar que a economia entre em colapso". E o Congresso já aprovou um pacote de US$ 2 trilhões. 

Crise e Desemprego nos Estados Unidos (BBC)
Para financiar esse gasto, o governo americano vai colocar títulos no mercado para captar recursos e, conforme salienta o jornalista, "vai quase certamente, emitir dólares, que é uma moeda aceita mundialmente." E pergunta: "O governo brasileiro também vai emitir títulos para arrecadar dinheiro? Vai apelar também para a emissão de moeda? Ou vender reservas?" 


Quando eu escrevi este artigo, em 26.3, minha resposta foi que não deve haver qualquer dúvida a esse respeito. O governo não deve vender reservas, porque, hoje, depois de fortes retiradas de dólares do Brasil e do aumento do preço do dólar, a situação financeira internacional do Brasil está longe de ser cômoda. Não devemos, também, emitir dívida pública nova, porque ela já é alta. Nem devemos aumentar os impostos. Só há, portanto, uma solução, emitir moeda.



Minha proposta é que enquanto a difusão da doença não for controlada, o Brasil deve se engajar em um programa de "quantitative easing" que poderíamos chamar de Fundo do Coronavírus. Em artigo na Ilustríssima (29.3), Pérsio Arida disse, sem elaborar, que "quadro institucional deve ser alterado para permitir ao Banco Central comprar títulos do Tesouro em mercado". Hoje, 30.6, saiu a notícia que o Banco Central está enviando para o Congresso uma emenda constitucional autorizando-o a adotar um programa de expansão quantitativa.




Para financiar os grandes gastos que se tornaram necessários, o Banco Central comprará títulos emitidos pelo Tesouro que não serão lançados na dívida pública brasileira. Para isto o Congresso deverá aprovar a emenda que o Banco Central está preparando. Esta emenda deverá autorizar o Conselho Monetário Nacional a administrar o processo. O fato de o Brasil não contar com uma moeda que é aceita internacionalmente não é aqui relevante. Isto só é relevante se o Brasil fosse emitir dívida externa, o que não é o caso.

Os recursos assim obtidos serão distribuídos entre a União, os estados e os municípios de acordo com as normas do Fundo de Participação dos Estados e Distrito Federal e o Fundo de Participação dos Municípios. E só poderão ser usados para enfrentar a crise do coronavírus. A emenda determinará com mais precisão quais podem ser esses gastos extra-orçamentários. 


Essa política terá efeito inflacionário? Não creio. Não é o aumento da quantidade de moeda que causa a aceleração da inflação, mas o excesso de demanda que o aumento da quantidade de moeda pode causar. Não é o caso do Brasil hoje. O quadro econômico é recessivo, a inércia inflacionária está razoavelmente neutralizada, e os agentes econômicos perceberão que a emissão não está sendo realizada porque o Estado perdeu o controle do seu gasto, mas para manter a economia minimamente funcionando. 


Fonte: Portal Bresser-Pereira, 30/03/2020 

sábado, 28 de março de 2020

Isolamento Social no combate à Epidemias: Exemplos históricos e lições da Pandemia da Gripe Espanhola (1918-1920)





History

Coronavirus Coverage


March 27, 2020

How some cities ‘flattened the curve’ during the 1918 flu pandemic


Social distancing isn’t a new idea—it saved thousands of American lives during the last great pandemic. Here's how it worked.

By Nina Strochlic and Riley D. Champine


Social distancing isn’t a new idea—it saved thousands of American lives during the last great pandemic. Here's how it worked.

By Nina Strochlic and Riley D. Champine



Philadelphia detected its first case of a deadly, fast-spreading strain of influenza on September 17, 1918. The next day, in an attempt to halt the virus’ spread, city officials launched a campaign against coughing, spitting, and sneezing in public. Yet 10 days later—despite the prospect of an epidemic at its doorstep—the city hosted a parade that 200,000 people attended.








Flu cases continued to mount until finally, on October 3, schools, churches, theaters, and public gathering spaces were shut down. Just two weeks after the first reported case, there were at least 20,000 more.
The 1918 flu, also known as the Spanish Flu, lasted until 1920 and is considered the deadliest pandemic in modern history. Today, as the world grinds to a halt in response to the coronavirus, scientists and historians are studying the 1918 outbreak for clues to the most effective way to stop a global pandemic. The efforts implemented then to stem the flu’s spread in cities across America—and the outcomes—may offer lessons for battling today’s crisis. (Get the latest facts and information about COVID-19.)










From its first known U.S. case, at a Kansas military base in March 1918, the flu spread across the country. Shortly after health measures were put in place in Philadelphia, a case popped up in St. Louis. Two days later, the city shut down most public gatherings and quarantined victims in their homes. The cases slowed. By the end of the pandemic, between 50 and 100 million people were dead worldwide, including more than 500,000 Americans—but the death rate in St. Louis was less than half of the rate in Philadelphia. The deaths due to the virus were estimated to be about 358 people per 100,000 in St Louis, compared to 748 per 100,000 in Philadelphia during the first six months—the deadliest period—of the pandemic.


Dramatic demographic shifts in the past century have made containing a pandemic increasingly hard. The rise of globalization, urbanization, and larger, more densely populated cities can facilitate a virus’ spread across a continent in a few hours—while the tools available to respond have remained nearly the same. Now as then, public health interventions are the first line of defense against an epidemic in the absence of a vaccine. These measures include closing schools, shops, and restaurants; placing restrictions on transportation; mandating social distancing, and banning public gatherings. (This is how small groups can save lives during a pandemic.)
Of course, getting citizens to comply with such orders is another story: In 1918, a San Francisco health officer shot three people when one refused to wear a mandatory face mask. In Arizona, police handed out $10 fines for those caught without the protective gear. But eventually, the most drastic and sweeping measures paid off. After implementing a multitude of strict closures and controls on public gatherings, St. Louis, San Francisco, Milwaukee, and Kansas City responded fastest and most effectively: Interventions there were credited with cutting transmission rates by 30 to 50 percent. New York City, which reacted earliest to the crisis with mandatory quarantines and staggered business hours, experienced the lowest death rate on the Eastern seaboard.
In 2007, a study in the Journal of the American Medial Association analyzed health data from the U.S. census that experienced the 1918 pandemic, and charted the death rates of 43 U.S. cities. That same year, two studies published in the Proceedings of the National Academy of Sciences sought to understand how responses influenced the disease’s spread in different cities. By comparing fatality rates, timing, and public health interventions, they found death rates were around 50 percent lower in cities that implemented preventative measures early on, versus those that did so late or not at all. The most effective efforts had simultaneously closed schools, churches, and theaters, and banned public gatherings. This would allow time for vaccine development (though a flu vaccine was not used until the 1940s) and lessened the strain on health care systems.
The studies reached another important conclusion: That relaxing intervention measures too early could cause an otherwise stabilized city to relapse. St. Louis, for example, was so emboldened by its low death rate that the city lifted restrictions on public gatherings less than two months after the outbreak began. A rash of new cases soon followed. Of the cities that kept interventions in place, none experienced a second wave of high death rates. (See photos that capture a world paused by coronavirus.)
In 1918, the studies found, the key to flattening the curve was social distancing. And that likely remains true a century later, in the current battle against coronavirus. “[T]here is an invaluable treasure trove of useful historical data that has only just begun to be used to inform our actions,” Columbia University epidemiologist Stephen S. Morse wrote in an analysis of the data. “The lessons of 1918, if well heeded, might help us to avoid repeating the same history today.”



Nina Strochlic is a staff writer covering culture for National Geographic.






STROCHLIC, N. & CHAMPIRE, R. D. (2020). How some cities ‘flattened the curve’ during the 1918 flu pandemic. National Geographic, March 27, 2020. History, Coronavirus Coverage. National Geographic Society.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Vídeo sobre o Coronavírus com o Pesquisador Dr. Átila Iamarino




Vídeo sobre o Coronavírus com o Pesquisador Dr. Átila Iamarino

"O que o Brasil precisa fazer nos próximos dias" - Live 20/03





Live sobre o Coronavírus com o Pesquisador Dr. Átila Iamarino

"O que o Brasil precisa fazer nos próximos dias" - Live 20/03





















domingo, 1 de março de 2020

História das Epidemias: lições não aprendidas da gripe espanhola



GGN, 29/02/2020


As lições que os EUA não aprenderam com a gripe espanhola: dizer a verdade

Enquanto a pandemia ocorria em outubro daquele ano, os americanos podiam ver com seus próprios olhos que as "garantias absurdas" vindas de autoridades locais e nacionais não eram verdadeiras.

Luis Nassif 




Trump está ignorando as lições da pandemia de gripe de 1918 que matou milhões, diz historiador


 Washington Post: Breaking News, World, por Gillian Brockell 

A Espanha, por outro lado, era um país neutro na guerra. Quando a doença chegou lá, o governo e os jornais relataram com precisão. Até o rei ficou doente.

Meses depois, quando uma onda maior e mais mortal varreu o mundo, parecia ter começado na Espanha, embora não tivesse começado. Simplesmente porque os espanhóis disseram a verdade, o vírus foi apelidado de “gripe espanhola”.

Quando a segunda onda de gripe espanhola ocorreu globalmente, “houve censura total” na Europa, disse Barry. “Nos Estados Unidos, eles não fizeram exatamente isso, mas houve intensa pressão para não dizer nada de negativo.”

As notícias sobre a guerra foram cuidadosamente controladas pelo Comitê de Informação Pública, uma agência federal independente cujo arquiteto, publicitário Arthur Bullard, disse uma vez: “A força de uma idéia está em seu valor inspirador. Pouco importa se é verdadeiro ou falso. ”

A CPI divulgou milhares de histórias positivas sobre o esforço de guerra, e os jornais muitas vezes as republicaram textualmente. Então, quando a gripe espanhola se espalhou pelos Estados Unidos no outono de 1918, o governo e a mídia continuaram a mesma estratégia “de manter a moral”.

O Presidente Woodrow Wilson não divulgou declarações públicas. O cirurgião geral Rupert Blue disse: “Não há motivo para alarme se as devidas precauções forem observadas”. Outro alto funcionário da área de saúde, disse Barry, o descartou como “gripe comum por outro nome”.

Mas não foi. A gripe espanhola teve uma taxa de mortalidade de 2% – muito mais alta que as cepas sazonais de influenza e semelhante a algumas estimativas iniciais sobre o coronavírus.

Também diferia em quem matava. A gripe sazonal tende a ser pior para os mais jovens e os mais velhos. A gripe espanhola era mais letal em adultos jovens.

Como soldados amontoados em campos militares.




Na maior parte, a mídia seguiu a liderança do governo e as notícias terríveis autocensuradas. Isso piorou tudo, disse Barry.

Por exemplo, na Filadélfia, as autoridades locais estavam planejando o maior desfile da história da cidade. Pouco antes do evento agendado, cerca de 300 soldados que retornavam começaram a espalhar o vírus na cidade.


“E basicamente todos os médicos, diziam aos repórteres que o desfile não deveria acontecer. Os repórteres estavam escrevendo as histórias; editores estavam matando-os ”, disse ele. “Os jornais da Filadélfia não publicariam nada sobre isso.”

O desfile foi realizado e, 48 horas depois, a gripe espanhola atingiu a cidade. Mesmo quando as escolas foram fechadas e as reuniões públicas foram proibidas, as autoridades da cidade alegaram que não era uma medida de saúde pública e que não havia motivo para alarme, disse Barry.

A Filadélfia se tornou uma das áreas mais atingidas do país. Os mortos jaziam em suas camas e nas ruas por dias; eventualmente, eles foram enterrados em valas comuns. Mais de 12.500 moradores morreram, de acordo com o Philadelphia Inquirer .
https://www.ohiohistory.org/learn/collections/history/history-blog/march-2020/spanishflu
Diferenças de mortos entre as cidades de S. Louis (que declarou a quarentena com isolamento social 2 dias depois do primeiro caso), e a Filadéfia (que demorou três semanas após o primeiro caso para iniciar a quarentena).


Se um jornal denunciou a verdade, o governo a ameaçou. A União do Condado de Jefferson, em Wisconsin, alertou sobre a gravidade da gripe em 27 de setembro de 1918. Em questão de dias, um general do Exército começou a processar o jornal sob um ato de sedição durante a guerra, alegando que tinha “moral deprimida”.




Enquanto a pandemia ocorria em outubro daquele ano, os americanos podiam ver com seus próprios olhos que as “garantias absurdas” vindas de autoridades locais e nacionais não eram verdadeiras. Essa crise de credibilidade levou a rumores sobre curas falsas e precauções desnecessárias, disse Barry.

A gripe espanhola acabou matando cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo 675.000 pessoas nos Estados Unidos, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças . Até o presidente Wilson percebeu, no meio das negociações para acabar com a Grande Guerra.

“Acho que a lição número 1 que surgiu da experiência é que, se você quiser evitar o pânico, diga a verdade”, disse Barry.



Em 2005 e 2006, Barry contribuiu como especialista no assunto para um plano de pandemia de influenza criado pelo CDC. Ele disse que achava que era seu trabalho bater o tambor “diga a verdade, diga a verdade”.

Agora, com o coronavírus, Barry disse que está “um pouco preocupado” com o plano que está sendo seguido. Ele não acha que o governo Trump esteja “mentindo completamente, mas eles definitivamente estão lhe dando interpretações que parecem ser os melhores cenários”.

Ele está particularmente preocupado com a decisão do presidente Trump de ter o vice-presidente Pence supervisionando a resposta, em vez de um especialista como Anthony Fauci, o médico que chefia o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas do National Institutes of Health.

Dada a crise de credibilidade que ocorreu com a pandemia de 1918, Barry disse que era “a coisa exata e errada a se fazer”.








Texto original:https://www.washingtonpost.com/history/2020/02/29/1918-flu-coronavirus-trump/




domingo, 6 de janeiro de 2019

Geohistória das Pandemias: 100 anos da Gripe Espanhola, a maior epidemia do século XX

Carta Capital, 05/01/2019

 100 anos da gripe espanhola, a epidemia do século

1918: Quem diria que uma gripe haveria de ser mais mortífera do que quatro anos de uma guerra insana?




Há cem anos, quando a Primeira Guerra Mundial se aproximava hesitantemente do fim, um Vírus influenza diferente de qualquer outro surgido antes ou depois varreu as ilhas Britânicas, matando soldados e civis. Uma das primeiras vítimas foi o então primeiro-ministro britânico e líder na guerra, David Lloyd George.





Em 11 de setembro de 1918, Lloyd George, entusiasmado pelas notícias dos recentes sucessos dos aliados, chegou em Manchester para ser homenageado com as chaves da cidade. Trabalhadoras em fábricas de munição e soldados de folga aplaudiram seu trajeto da estação ferroviária de Piccadilly até a Albert Square. Mas naquela mesma noite ele sentiu dor de garganta e febre, e desmoronou.

Lloyd George passou dez dias confinado em um leito na prefeitura de Manchester, doente demais para se deslocar e respirando com um aparelho mecânico. Os jornais minimizaram a gravidade de seu estado, por medo de presentear os alemães com um golpe de propaganda. Mas, segundo seu camareiro, a coisa foi “imediata”.



Lloyd George, então com 55 anos, sobreviveu, mas outros não tiveram tanta sorte. Em uma era anterior aos antibióticos e vacinas, a “gripe espanhola” — assim chamada porque a Espanha, neutra na guerra, foi um dos poucos países, em 1918, onde os correspondentes tiveram liberdade para relatar o surto – custou a vida de quase 250 mil britânicos.

Cruelmente para um país que tinha visto a nata da juventude masculina ser derrubada pelos canhões alemães, as vítimas, geralmente, eram adultos entre 20 e 40 anos. A mortalidade foi o contrário da maioria das temporadas de gripe, quando os óbitos atingem principalmente os idosos e as crianças com menos de 5 anos.

 

O número total de mortos foi inconcebível: segundo as estimativas mais recentes, entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas em todo o mundo pereceram nas três ondas da epidemia, entre a primavera de 1918 e o inverno de 1919. Ajustado pelo crescimento populacional, isso equivale hoje a, aproximadamente, de 200 milhões a 425 milhões de pessoas.



Ao contrário dos dias atuais, quando relatos de novos surtos de gripe aviária no Sudeste da Ásia são monitorados de perto pelo Organização Mundial da Saúde, não houve um sistema de aviso para prevenção. Consequentemente, quando foi relatado, em maio de 1918, que o rei Alfonso XIII estava doente em Madri, a maioria das pessoas levou a gripe espanhola na brincadeira.

O principal conselho era gargarejar com água salgada e isolar-se até que a febre passasse. No entanto, essas regras não se aplicavam aos trabalhadores em munições, que eram instados a “seguir em frente” em nome do esforço de guerra.

Assim como em outras epidemias e pandemias do século XX, tais como a de HIV/Aids, os africanos e asiáticos sofreram proporcionalmente mais que os europeus e norte-americanos. Assim, enquanto a mortalidade média de casos no mundo desenvolvido foi de, aproximadamente, 2%, na Índia, onde morreram 18,5 milhões de pessoas, foi de 6%, e no Egito, com 138 mil baixas, de 10%.

Em regiões isoladas com populações “virgens”, sem imunidade à gripe, o impacto foi realmente incrível – em Samoa Ocidental, por exemplo, um quarto da população foi dizimado. Em comparação, a Samoa Americana não registrou baixas.

A gravidade da epidemia e o padrão peculiar das mortes intrigam os cientistas até hoje. Poucos epidemiologistas acreditam que o surto começou na Espanha, apontando ondas pré-epidêmicas em Copenhague e outras cidades da Europa Setentrional no verão de 1918.

Onde o vírus saltou primeiro das aves para humanos ou algum outro mamífero é ainda mais intrigante, e alguns cientistas dizem que o estado do Kansas, nos EUA, foi um ponto de origem; para outros, o Norte da França ou a China.

No início deste ano, em busca de respostas para uma nova série de podcasts, viajei a Washington para entrevistar um dos principais especialistas mundiais na epidemia de 1918, o patologista molecular Jeffrey Taubenberger, do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas.

Ele estuda o vírus da gripe espanhola há mais de 30 anos e, no fim de 1990, conseguiu recuperar fragmentos de RNA viral de espécimes patológicos armazenados, retirados de soldados americanos que morreram de gripe em campos do Exército em 1918 e de uma mulher inuit que foi enterrada em uma praia no Alasca, onde o permafrost preservou seu tecido pulmonar da decomposição.

Usando técnicas moleculares modernas, Taubenberger e sua colega Anne Reid ampliaram os fragmentos e, em 2005, publicaram a sequência genética do vírus. Suas descobertas foram chocantes. Antes, epidemiologistas tinham observado que as epidemias de gripe eram precedidas ou seguidas de surtos de doenças semelhantes em cães, gatos e cavalos.

Também se sabia que de vez em quando os vírus da gripe podiam infectar porcos e, é claro, seres humanos, e que os vírus selvagens da doença circulavam em aves aquáticas migratórias. No entanto, quando Taubenberger analisou o genoma da gripe espanhola, descobriu que a maioria de seus genes derivava de um vírus da gripe aviária.

De fato, Taubenberger considerou o vírus H1N1 tão “semelhante ao aviário” que não pôde descartar a possibilidade de que ele tivesse se transmitido diretamente de aves para humanos pouco antes de 1918 – e talvez ainda em 1916.

A descoberta levantou a terrível hipótese de que, no futuro, algum outro vírus influenza aviário – como o H5N1, que circulava então no Sudeste Asiático, ou o H7N9, que atualmente causa infecções esporádicas na China – poderiam subitamente adquirir a capacidade de provocar uma epidemia igualmente devastadora.


Para evitar esse caso, Taubenberger e outros cientistas com acesso ao congelador que contém os vírus são rastreados pelo FBI e têm de usar luvas duplas, um respirador e roupa de proteção completa – como as usadas por profissionais médicos durante a epidemia de ebola no Oeste da África. Eles também devem se submeter a um escaneamento de íris. “É realmente equivalente à autorização de alto sigilo”, diz ele.

A experimentação continuada é necessária para o desenvolvimento de vacinas e outras intervenções médicas. Em ratos, a gripe espanhola H1N1 é extremamente contagiosa, gerando 39 mil vezes mais partículas de vírus que uma variedade moderna.

Ao visar a reação inflamatória, Taubenberger demonstrou que os ratos podem ser protegidos. Mas os cientistas estão longe de descobrir a cura da gripe, muito menos uma vacina universal contra variedades epidêmicas sazonais e futuras.

De modo frustrante, ainda não se sabe onde e quando a gripe espanhola adquiriu seus genes aviários e começou a se espalhar por humanos. Os genes aproximam-se mais de aves aquáticas da América do Norte, mas, apesar de examinar as extensas coleções de aves do Instituto Smithsonian, Taubenberger não conseguiu encontrar restos de autópsias viáveis anteriores a 1918.

Uma teoria é que o chamado evento de disseminação ocorreu no início de 1918, não distante de um acampamento do Exército dos EUA no Kansas que fornecia soldados à Força Expedicionária Americana.

Certamente houve surtos explosivos de uma doença semelhante à influenza no Camp Funston, em Fort Riley, em março de 1918, seguidos de surtos semelhantes ao longo do litoral Leste do país e nos navios que transportavam soldados para a França.

No entanto, os primeiros fragmentos do vírus epidêmico obtidos por Taubenberger datam de maio de 1918, por isso não há como dizer se surtos anteriores foram causados pela variedade epidêmica, em oposição a uma gripe sazonal comum.

Uma teoria rival, preferida pelo virologista britânico John Oxford, é que a epidemia começou em Étaples, um enorme campo militar britânico a uma hora a sudoeste de Boulogne, na França. Com acomodações para até 100 mil soldados, Étaples fica numa rota de aves migratórias próxima ao estuário do Rio Somme, e tinha todas as condições necessárias para um evento de disseminação: aves aquáticas silvestres, mais galinhas e porcos vivendo muito próximos de homens amontoados em barracões sem ventilação.

Étaples também tinha vários hospitais, para onde foram levados para tratamento soldados cujos pulmões tinham sido comprometidos por gases mutagênicos utilizados em batalha.

No inverno de 1917, centenas de soldados britânicos foram atingidos por sintomas semelhantes aos da gripe, e médicos em Étaples registraram 156 mortes. Na época, a epidemia foi chamada de “bronquite purulenta” por causa do pus amarelo que brotava das passagens aéreas maiores dos pulmões em autópsias (alguns médicos acharam que pareciam os danos nos pulmões causados pelo gás fosgênio).

Outra característica proeminente era a cianose, uma coloração arroxeada dos lábios, ouvidos e faces, causada pela falta de oxigênio no coração.

Mas talvez a maior pergunta não respondida seja por que a gripe espanhola se mostrou tão mortal para os jovens adultos? Aqui, a ciência atual tem hipóteses, mas nenhuma boa resposta.

Uma sugestão é que os idosos gozavam de maior imunidade, porque, quando crianças, tinham sido expostos a um vírus epidêmico com formação genética semelhante ao H1N1 da gripe espanhola.

Por outro lado, as pessoas com mais de 28 anos tinham um ponto cego imunológico, porque sua primeira exposição tinha sido à “gripe russa” de 1890, um vírus H3 com uma configuração genética completamente diferente.

Ou talvez o padrão de mortalidade incomum visto em 1918 fosse o resultado de uma exposição ambiental ainda não identificada ou fator de estresse peculiar a jovens adultos na época.

Responder a essas perguntas é importante porque os genes da gripe espanhola continuam circulando em populações humanas e de suínos até hoje. Alguns desses genes são descendentes diretos do vírus de 1918, outros se remisturaram com novos vírus epidêmicos, como o da gripe de Hong Kong de 1968 e o vírus híbrido H1, responsável pela epidemia de gripe suína de 2009.

Como diz Taubenberger, “(o surto de) 1918 causou uma introdução muito bem-sucedida de um vírus semelhante ao avícola em seres humanos que nunca desapareceu em cem anos. Ela realmente foi a mãe de todas as epidemias”.

A epidemia foi especialmente dura para as crianças, talvez mais que para qualquer outro segmento da população. Na Cidade do Cabo, na África do Sul, observou uma testemunha, a onda do outono “deixou órfãs entre 2 mil e 3 mil crianças”.

Em Londres, entretanto, estima-se que 16 mil pessoas tenham morrido entre setembro e dezembro de 1918, na maioria homens e mulheres jovens. O resultado foi que 1919 seria o primeiro ano desde que começaram os registros na Grã-Bretanha em que a taxa de mortalidade superou a de nascimentos.

Hoje há poucas pessoas ainda vivas que podem lembrar daqueles dias sombrios em novembro, quando, segundo o oficial médico-chefe de Manchester, James Niven, “parecia que seria impossível preparar caixões para os mortos, ou coveiros para cavar os túmulos”. Motivo ainda maior para, no ano do centenário da epidemia, nos lembrarmos das experiências dos sobreviventes da Dama Espanhola.


 Fonte: Carta Capital, 05/01/2019
 




terça-feira, 26 de julho de 2016

Desafios para o Brasil diante das disputas geopolíticas globais

Carta Capital

Economia

Entrevista - Ronaldo Fiani

“Brasil se vê distante da guerra geopolítica, mas está no centro”

por Carlos Drummond publicado 25/07/2016 10h27, última modificação 25/07/2016 18h41 
 
Em meio à discussão sobre o pré-sal, o País ainda se baseia na oposição simplista entre alinhamento aos EUA e antiamericanismo, diz economista da UFRJ.





O Brasil estaria na iminência de entregar ao capital externo o seu patrimônio petrolífero incomum e a empresa com a melhor tecnologia do mundo para explorá-lo, acusa a oposição ao governo interino de Michel Temer.

O projeto do senador licenciado e ministro das Relações Exteriores José Serra, de eliminar a participação obrigatória da Petrobras no pré-sal, seria o começo do retrocesso, apontam vários críticos.Os problemas não terminam aí.

Falta ao País uma estratégia diante do confronto geopolítico global, no qual o acesso ou o bloqueio a fontes de energia é um elemento central, ensina o professor de Economia Ronaldo Fiani, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Mais grave ainda: por possuir as reservas da camada do pré-sal, a tecnologia de prospecção e extração de petróleo em águas profundas e ter a China como sócia em uma área de influência dos Estados Unidos, o Brasil está na linha de impacto do megaconflito entre Ocidente e Oriente.

Precisamente, o oposto do sugerido pelo senso comum, de que nada disso nos afeta por ser muito longínquo. Polarizado entre o pró e o antiamericanismo simplistas, evidência da captura das elites pelo confronto geopolítico, o País não conta com um líder como Getúlio Vargas.

Hábil negociador, soube tirar partido de outro conflito global, o da Segunda Guerra Mundial, em benefício do interesse nacional. O choque geopolítico mundial, minimizado ou sequer percebido por aqui, é detalhado pelo professor da UFRJ na entrevista a seguir:


CartaCapital: O País corre o risco imediato de perder o poder sobre o pré-sal, por conta da escalada acelerada pelo projeto do senador licenciado e Ministro das Relações Exteriores José Serra, de acabar com a participação obrigatória da Petrobras na reserva de petróleo e gás mais produtiva do mundo. É importante manter essa obrigatoriedade?

Ronaldo Fiani: Sim, mas não é suficiente.


CC: Por que?

RF: No debate político e na maior parte da mídia, a questão é apresentada como se fosse um dilema entreguismo versus soberania nacional. É bem mais complicado do que isso, principalmente quando se considera que a Petrobras está em campos do pré-sal associada com empresas chinesas que já investiram 10 bilhões de dólares na operação. Isso em uma área de influência dos Estados Unidos. É razoável, portanto, avaliar o problema num quadro mais amplo, como um reflexo, na questão do pré-sal e na América do Sul, do confronto geopolítico maior e mais estrutural que nós estamos vivendo.


CC: A abordagem predominante é de encarar o pré-sal como um assunto estratégico de suprimento de energia.

RF: É bem mais abrangente que isso. Energia, geopolítica guerra sempre estiveram ligadas. A expressão mais direta e fundamental de poder dos Estados é a capacidade de fazerem guerra. A partir do século 19, houve uma mudança dramática. Com a revolução industrial, começou-se também a fazer guerra em escala industrial. A capacidade de o estado projetar poder passou a depender, essencialmente, da sua produção de armas, munição, navios. Para movimentar essa máquina, há necessidade de energia em quantidade crescente.

No século 20, o próprio ato de guerrear passou a consumir energia de forma fantástica. Foi quando o primeiro-ministro Winston Churchill decidiu mudar o combustível da marinha real britânica, a maior do mundo, de carvão para petróleo.

Ele tomou essa decisão porque os navios movidos a óleo eram mais rápidos e, principalmente, podiam ser abastecidos em alto mar, coisa que no navio movido a carvão era praticamente impossível. Além disso, exigia uma mão de obra menor só para cuidar do combustível. No navio de guerra usual, muito da mão de obra era para cuidar do carvão. A substituição, portanto, liberava soldados para cuidar dos armamentos.

CC: E a marinha ganhava agilidade.

RF: A possibilidade de reabastecer em alto-mar deu uma mobilidade fantástica para a marinha britânica, e depois à dos Estados Unidos, mas criou um problema. A Grã-Bretanha tinha reservas de carvão no seu próprio território, mas naquela época ainda não tinha petróleo, que estava na Ásia Central e depois, no Oriente Médio. Isso criou a questão geopolítica na energia. Porque se você corta as fontes de combustível, paralisa uma máquina de guerra praticamente de imediato.

Pearl Harbour aconteceu porque os Estados Unidos, que produziam seis sétimos de todo o petróleo consumido na Segunda Guerra Mundial, tentaram impor um embargo de petróleo ao Japão.

A decisão de Hitler, considerada um grave erro por analistas menos informados sobre a questão energética, de dirigir as suas tropas para Stalingrado ao invés de ir direto a Moscou, ocorreu porque as forças alemãs precisavam desesperadamente do petróleo do mar Negro e do Cáucaso para se deslocar e resistir em uma guerra prolongada. A substituição do combustível aumentou muito a capacidade da Grã-Bretanha, e depois dos Estados Unidos, de projetar poder naval.

CC: O acesso à energia é, portanto, crucial.

RF: Sim, mas para fazer guerra hoje, com a indústria moderna, em grande escala, não basta um superávit permanente de energia, é preciso também negar ao inimigo o acesso às fontes de energia. O confronto geopolítico contemporâneo é um gigantesco xadrez que inclui a América do Sul, África Ocidental, Ásia, e consiste na manipulação de fontes de energia, através da construção de oleodutos e gasodutos que integrem países, permitam ter acesso a fontes de energia e eventualmente negá-lo a outros países, hostis.












CC: Quais são os elementos principais da geopolítica nos dias atuais?

RF: A geopolítica no século 19 visava, basicamente, garantir as rotas navais, por serem o meio de expansão comercial no globo. Na primeira década do século 20, o geógrafo Halford Mackinder, na Inglaterra, e depois o estrategista Nicholas J. Spykman, nos Estados Unidos, perceberam que o poder naval não era mais suficiente.

O desenvolvimento do transporte terrestre, especialmente das ferrovias, podia se tornar uma base de poder muito grande, por permitir o transporte de tropas e armamentos mais rápido que os navios.
E isso se tornava particularmente grave porque, face a possibilidade de integrar Ásia e Europa, fatalmente Grã-Bretanha, Estados Unidos e outros países seriam empurrados para a margem do sistema global. Juntar Ásia com Europa resulta na maior massa de terra, recursos e população do planeta, a chamada Eurásia.

Daí porque toda a estratégia dos Estados Unidos no pós-guerra seria exatamente conter qualquer poder que busque integrar Ásia e Europa. A sabedoria da China, carente em energia, foi usá-la para se expandir


CC: Qual a importância da China nesse contexto?

RF: É crucial porque, ao contrário dos demais estados e forças políticas, não busca integrar Ásia e Europa politicamente, mas economicamente, através das famosas rotas da seda, eixos de infraestrutura de comunicação, transporte e, principalmente, energia. Há uma série de desdobramentos extremamente importantes. O primeiro tem a ver com a Rússia, essencial no projeto chinês de integrar Ásia e Europa. Decorre daí a escalada de tensão entre a Otan e a Rússia. Sem o apoio desse país, não é possível fazer aquela integração, por causa da posição geoestratégica que a Rússia desfruta nessa união. Na América do Sul, os investimentos chineses buscam integrar os países à rede de interesses em construção para a Ásia e a Europa, com a mesma estratégia. Investe-se em energia, transporte, inclusive há o projeto da estrada de ferro proposta pela China para ligar o Brasil ao Pacífico.


CC: Por que a integração de Ásia e Europa através da China é tão importante?

RF: A maior massa de terra é a junção de Europa e Ásia. Para controlar a Eurásia, é preciso dominar o seu centro, a Ásia Central. Quem fizer isso, controlará o planeta. Essa é a visão de Mackinder. Grã-Bretanha e, de certa forma, Estados Unidos têm uma preocupação muito grande em impedir que outro poder político domine a Ásia Central.

Entretanto, todas as tentativas nesse sentido fracassaram no século 20, por se tratar de um mosaico de culturas e povos que dificulta muito a unificação política da região. O que os chineses estão fazendo agora? Não estão unificando politicamente, mas economicamente. Eles constroem, neste momento, uma monumental infraestrutura de transporte e telecomunicações para ligar a China à Europa, passando pela Ásia Central. Com isso, a energia se transformou num instrumento para controlar aquilo que Mackinder considerou o centro da política no tabuleiro internacional.

A grande percepção da China foi transformar aquilo que em princípio seria uma debilidade da sua estratégia de potência, que é o fato de não dispor de fontes de energia, em um instrumento para unificar e projetar o seu poder economicamente sobre o centro do tabuleiro da Eurásia, com a ajuda inestimável e muito bem-vinda da Rússia. O Brasil se vê distante da guerra geopolítica, mas está no seu centro


CC: Como o Brasil se posiciona no jogo geopolítico?

RF:
Essa é uma questão extremamente difícil, porque a inserção do País é muito problemática. O movimento da China para controlar o centro da Eurásia economicamente, inclusive importando energia, não é observado por Estados Unidos, União Europeia e Japão de forma tranquila. Ao contrário, determina um aguçamento do conflito, como se observa na Ucrânia, na Macedônia, na Síria, reflexos do esforço das chamadas potências ocidentais para afastar a possibilidade de unidade entre Ásia e Europa mediada pela China. São conflitos em torno da área de influência de Rússia e China.

É importante entender que a parceria entre Rússia e China não é apenas uma questão de conveniência de dois países que se sentem ameaçados. Ela é geoestratégica, porque a condição necessária para os chineses alcançarem a Europa de modo eficaz é o apoio da Rússia, influente na Europa Central. Do mesmo modo que o respaldo da China é indispensável para a Rússia enfrentar a Otan.

Desde o ano passado, uma ferrovia une Yiwu, próxima a Xangai, a Madri, na Espanha, para transporte de carga em tempo muito inferior ao dos navios. Esse é o pesadelo dos países que perderiam poder em escala global se essa articulação realmente acontecer. O Brasil está exatamente no meio desse conflito entre Estados Unidos e seus aliados e China e Rússia e seus aliados.


CC: Por que?

RF: Porque a questão não é apenas garantir oferta de energia para a capacidade de um país projetar poder, é principalmente negar ao outro que o confronta o acesso a essas fontes de energia.

E nós temos não só grandes reservas no pré-sal como uma empresa brasileira com capacidade de explorar essas reservas, o que nos dá uma notável autonomia para aproveitar esse recurso, e essa empresa se encontra associada às empresas chinesas de petróleo CNOOC e CNPC.

Portanto estamos inseridos num espaço tradicionalmente de influência norte-americana, com uma empresa com capacidade tecnológica de explorar o pré-sal, associada a uma empresa chinesa. Estamos exatamente, digamos assim, na linha de confronto. A situação é agravada ainda mais pelo fato de termos um projeto de submarino nuclear com capacidade de fechar o corredor do Atlântico, por ser muito mais rápido que o convencional.

Há uma crença generalizada no País de que nós estamos fora desse confronto entre Oriente e Ocidente. Devido às reservas energéticas e as matérias-primas que temos, estamos diretamente na linha de frente desse conflito.

A posição oposta, de que isso tudo não nos diz respeito por estar muito longe, é profundamente equivocada e pode ter consequências gravíssimas. E isso me preocupa muito porque eu não vejo por parte dos políticos, das lideranças políticas, e mesmo da maior parte dos intelectuais brasileiros, a percepção desse quadro. Não temos uma liderança extremamente hábil como foi Getúlio Vargas

CC: Seria melhor fazer parceria com a China ou os Estados Unidos? 

RF: Examinada de perto, nenhuma das duas parcerias atende, neste momento, às necessidades do Brasil. O modelo chinês de desenvolvimento é muito parecido com o padrão britânico do século 19, no sentido de que a China consome matérias primas e exporta produtos industrializados e nós exportamos matérias-primas e importamos manufaturados chineses.

Segundo especialistas em comércio exterior, a economia brasileira tem-se tornado progressivamente competidora com a economia norte-americana, por exemplo em soja e automóveis. Fazer exportações significativas desses produtos aos EUA parece pouco provável, pois eles são grandes produtores. Não há, portanto, uma relação de complementaridade. Um alinhamento automático, quer a um lado, quer a outro, provocaria danos irreversíveis na economia nacional.


CC: O que o Brasil deveria fazer nesse contexto?

RF: Falta ao País a formulação de uma estratégia frente a esse confronto geopolítico global. Não percebo, entretanto, em nenhuma força política, a formulação dessa estratégia.

CC: O contexto político-econômico do País é uma complicação adicional.

RF:
O sistema político do País está se desintegrando e não há nenhuma preocupação em preservar as organizações e instituições. A partir daí, o que vai acontecer é absolutamente imprevisível.

CC: No período de Getúlio Vargas, o País soube tomar partido do conflito que opunha as forças aliadas e o chamado eixo.

RF: Exatamente. Entre os anos 1930 e hoje, claro que são situações historicamente muito diferentes, mas há um traço comum: tanto naquele momento como agora, o mundo vivia um confronto geopolítico. Só que naquele período tivemos uma liderança extremamente habilidosa, que era o Getúlio Vargas (nota da redação: na Segunda Guerra Mundial, Vargas ameaçou aliar-se ao Eixo Alemanha-Japão-Itália e com isso obteve dos Estados Unidos, através do Eximbank, financiamento para construir a Usina de Volta Redonda, fundamental para a constituição da indústria no Brasil).

Hoje, nós não temos uma liderança semelhante. Como é que o País fica? Ao invés de se pensar uma estratégia, há uma captura das elites políticas no Brasil por esse confronto geopolítico. Há uma polarização antiamericanismo versus alinhamento automático com os Estados Unidos, evidência de que ocorreu uma captura dos agentes pela própria dinâmica do confronto geopolítico. É extremamente preocupante por serem duas saídas muito simplistas.

Na verdade, o Brasil não pode prescindir nem dos Estados Unidos, dada a posição que esse país ocupa no continente e o fato de ainda ser a maior potência global, nem da China, que hoje, de certa forma, sustenta o comércio exterior brasileiro. É preocupante não se discutir alternativas. Há uma captura pela mesma dinâmica de polarização do confronto global. Assim vai ser difícil conferir à economia brasileira o dinamismo necessário para sustentar cerca de 200 milhões de habitantes. A nossa afinidade está muito mais na África do que na América andina.

CC: Como o senhor vê esse movimento do Ministério das Relações Exteriores que pode resultar no fechamento de representações na África?

RF: Alguns dizem que o Brasil é o país mais ocidental da África, em tom crítico. Não vejo necessariamente como crítica ou elogio. Houve uma dinâmica muito forte de expansão de representações brasileiras na África com base em um desejo de ampliar a participação e a credibilidade do País no cenário global, torná-lo um player efetivo nas relações internacionais. No quadro de confronto geopolítico mencionado, essa perspectiva não é errada, mas precisa ser situada em um contexto.
Hoje a economia brasileira não encontra solução no alinhamento automático em nenhum dos dois lados do confronto global e é necessário estabelecer vínculos comerciais com países que são também uma alternativa para o avanço da nossa economia. Essas representações devem ser avaliadas da perspectiva daquilo que a relação entre os países pode gerar para dinamizar a economia brasileira. Visar simplesmente a projeção do Brasil no cenário internacional, num clima de confronto, é muito difícil.
CC: Qual é a relação entre geopolítica e a questão da energia?

RF:
Um dos enganos mais comuns é considerar a energia como uma questão isolada. Energia, ao menos desde o início do século 20, é uma questão geopolítica. Pensá-la isoladamente como um problema em si leva a não perceber que a questão energética sempre estará inserida num contexto geopolítico e será determinada por injunções geopolíticas, ainda mais no momento atual.

CC: Como ficam a América Latina e a África no conflito geopolítico descrito?

RF:
Essa é uma pergunta que também me obriga a ir contra a crença geral. Muito da geopolítica brasileira foi pensada numa espécie de extrapolação do Tratado de Tordesilhas. Como nós empurramos a linha de Tordesilhas para o Oeste, o destino brasileiro seria os Andes, seria chegar no Pacífico. É possível ver uma retomada disso naquele projeto mencionado de ferrovia ligando o Brasil ao Pacífico e chegando no Peru, que os chineses estão propondo. Mas é importante ter uma outra dimensão, que é social e cultural, da geopolítica.

Na verdade, nós temos profundas, fortes e muito sólidas raízes africanas. A nossa afinidade está muito mais na África do que na América andina. Na verdade, nós temos que nos orgulhar disso, porque a nossa afinidade está na África, a nossa facilidade de diálogo está na África. Então, novamente, as potências que estabelecerem uma aliança com o Brasil terão um pé na África.

Daí vem também uma outra dimensão que não tem necessariamente a ver com energia, tem mais a ver com história e geografia, da nossa importância geopolítica nesse conflito, que é o fato que o Brasil é uma ponte para a África.
Portanto controlando este lado do tabuleiro, você cria afinidades com outro lado do tabuleiro também. Ajuda nesse movimento. Além, é claro, de você controlar o Atlântico Sul.

CC: Todos esses fatores, conclui-se da sua análise, tornam a questão energética uma arma geopolítica.

RF: E é por isso que hoje pensar a questão energética do País como um problema única e exclusivamente econômico, como um problema de ‘como fica o custo de extração do pré-sal com a manipulação de preços dos sauditas’, é pensar de uma forma totalmente errada. Até porque, como os sauditas estão mostrando, energia sempre foi e sempre será, uma arma de luta política e geopolítica.
O que mais me preocupa neste momento é que não parece existir, nem das lideranças políticas nem na intelectualidade de uma forma geral, a percepção da gravidade do posicionamento brasileiro nesse conflito geopolítico internacional. Não adianta o domínio do pré-sal se não houver uma estratégia definida a partir da percepção desse contexto.

FONTE: http://www.cartacapital.com.br/economia/201cbrasil-se-ve-distante-da-guerra-geopolitica-mas-esta-no-centro201d