Análise Geopolítica e Análise de Conjuntura; espaço para debate e discussão de temas relacionados a Geografia, Política e Geopolítica. Geopolítica do Brasil e da América do Sul, Geopolítica Mundial, Geografia Política, Geografia Econômica e Política Internacional
segunda-feira, 14 de março de 2022
segunda-feira, 7 de março de 2022
sexta-feira, 4 de março de 2022
Geopolítica da Guerra na Ucrânia - entrevista com o professor Lucas Kerr-Oliveira
Estamos acompanhando diariamente as notícias sobre a situação da Ucrânia e os ataques da Rússia. Mas você sabe quais são os verdadeiros motivos que levaram a esse conflito? Neste episódio do ¿Qué Pasa?, o bate-papo é com o professor Lucas Kerr Oliveira, do curso de Relações Internacionais e Integração da UNILA, que nos dá um panorama histórico da Ucrânia e sua relação com a Rússia, fala sobre os recentes ataques e os possíveis impactos para a América Latina. Lucas Kerr-Oliveira
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022
quinta-feira, 17 de setembro de 2020
75 anos da II Guerra Mundial: o papel do Brasil, da Rússia e da China
75 anos da II Guerra Mundial: o papel do Brasil, da Rússia e da China
O último suspiro da Segunda Guerra Mundial acontecia em setembro de 1945, com a rendição japonesa.
O Sistema Internacional foi reestruturado e reconstruído pelos efeitos da II Guerra Mundial
sofreu
grandes transformações, mas continua apresentando diversas estruturas e
padrões de relações entre os Estados herdadas daquele evento
catastrófico.
Exatos 75 anos depois, as potências tradicionais
apresentam relativa decadência em relação às potências emergentes. A
construção de novos padrões de relações Sul-Sul, progressivamente mais
institucionalizadas, vem acompanhada de diversos estudos acadêmicos
partindo de uma visão do sul global geopolítico, reivindicando o lugar
da periferia na história mundial. Neste contexto o grupo dos países do
BRICS reposiciona sua voz nessa História constantemente re-interpretada e
re-analisada.
O Ciclo de Debates do NEEGI apresenta do debate:
“75
anos da II Guerra Mundial: o papel do Brasil, da Rússia e da China”,
realizado ao vivo, no canal do NEEGI no YouTube, no dia 17 de setembro,
quinta-feira, à partir das 19h
Nossos queridos convidados e debatedores são:
Alessandra Scangarelli Brites
Bruno Magno
Eden Pereira Lopes da Silva
João Claudio Platenik Pitillo
Lucas Kerr Oliveira
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
Rússia desenvolve submarino nuclear capaz de controlar e reabastecer frota de drones submarinos
Cientistas da firma de design Malakhit, da Rússia, desenvolveram o projeto conceitual de uma plataforma de energia nuclear flutuante capaz de transportar e carregar a bateria de drones subaquáticos, segundo informou o chefe da empresa à Sputnik nesta terça-feira (6), durante o fórum militar Army-2016.
"Estudantes, juntamente com jovens profissionais da Malakhit (…) desenvolveram um conceito cuja ideia é criar uma plataforma universal que possa permitir a utilização de veículos submarinos não tripulados", disse Vladimir Dorofeyev, um dos participantes do evento técnico-militar que acontece na região de Moscou até o dia 11.
"Este conceito visa combinar as melhores qualidades da plataforma móvel: a capacidade de levar esses veículos para o local de seu uso, e ao mesmo tempo proporcionar-lhes eletricidade, manter a sua prontidão técnica e ler dados a partir deles", afirmou o diretor da empresa russa.
Mostrar mais: https://br.sputniknews.com/defesa/201609066249434-russia-plataforma-nuclear-drones-subaquaticos/
Vladimir Dorofeyev, chief of Malakhit Design Bureau, has announced this new design at the Army-2016 international military forum that kicked off in Moscow on September 6. He explained that the new platform is expected to perform as both a carrier unit and a recharge station for underwater drones, according to RIA Novosti. "Students and young specialists at Malachite came up with this concept, the goal of which is to create a universal platform that could facilitate the use of unmanned underwater vehicles," Dorofeev said.
According to Dorofeyev, the need for such a platform is determined by the inability of the currently existing unmanned underwater vehicles to operate for prolonged periods of time without recharging. "This concept is meant to function as a mobile platform capable of delivering the drones to deployment areas and at the same time to provide them with power, maintain their technical readiness and collect the data relayed by them,” he added.
Read more: https://sputniknews.com/science/201609071045048475-underwater-drone-carrier-design/
Russia may be planning to develop a nuclear submarine drone aimed at 'inflicting unacceptable damage'
Jeremy Bender 11.11.2015
Robots, drones to boost Russian 5th gen
nuclear subs’ arsenal

“We’re talking about battle robots which can be released by the submarine, and a type of underwater drone,” he explained.
According to the designer, the robots would be disposable or returnable of military, surveillance or communications purpose.
“They’ll be released by the submarine and stay offline before being remotely activated on command. It will give the submarine time to leave the area, with the drone staying in place to maintain a semblance that the submarine is still there,” he said.
Novoselov stressed that developing robots for submarines isn’t an exclusive Russian field, as “the whole world is moving in this direction.”
However, it’ll take some time for underwater drones to become common practice, because at present the Russian military is being equipped with fourth generation subs.
This year, the St. Petersburg-based Malakhit design engineering bureau completed the 20-year construction of the Severodvinsk multipurpose nuclear submarine, which has already joined the naval fleet.
READ MORE:Russian navy welcomes most-advanced nuclear-powered attack sub
Severodvinsk is the flagship of the Yasen-class submarines, which will become the backbone of the Russian Navy’s conventional submarine force.
In addition to 533mm torpedoes, Yasen-class submarines can fire cruise missiles from its eight vertical launching systems. They can also carry Onyx and Kalibr supersonic anti-ship missiles.
The subs have a submerged displacement of 13,800 tons and can travel up to 30 knots (56 kmh) under water.
The crew totals some 64 sailors, including 32 officers, proof of the highly-automated level of its functions.
Russia is currently building three more Yasen-class submarines, with three more contracted for 2015.
terça-feira, 26 de julho de 2016
Desafios para o Brasil diante das disputas geopolíticas globais
Entrevista - Ronaldo Fiani
“Brasil se vê distante da guerra geopolítica, mas está no centro”
O projeto do senador licenciado e ministro das Relações Exteriores José Serra, de eliminar a participação obrigatória da Petrobras no pré-sal, seria o começo do retrocesso, apontam vários críticos.Os problemas não terminam aí.
Falta ao País uma estratégia diante do confronto geopolítico global, no qual o acesso ou o bloqueio a fontes de energia é um elemento central, ensina o professor de Economia Ronaldo Fiani, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Mais grave ainda: por possuir as reservas da camada do pré-sal, a tecnologia de prospecção e extração de petróleo em águas profundas e ter a China como sócia em uma área de influência dos Estados Unidos, o Brasil está na linha de impacto do megaconflito entre Ocidente e Oriente.
Precisamente, o oposto do sugerido pelo senso comum, de que nada disso nos afeta por ser muito longínquo. Polarizado entre o pró e o antiamericanismo simplistas, evidência da captura das elites pelo confronto geopolítico, o País não conta com um líder como Getúlio Vargas.
Hábil negociador, soube tirar partido de outro conflito global, o da Segunda Guerra Mundial, em benefício do interesse nacional. O choque geopolítico mundial, minimizado ou sequer percebido por aqui, é detalhado pelo professor da UFRJ na entrevista a seguir:
CartaCapital: O País corre o risco imediato de perder o poder sobre o pré-sal, por conta da escalada acelerada pelo projeto do senador licenciado e Ministro das Relações Exteriores José Serra, de acabar com a participação obrigatória da Petrobras na reserva de petróleo e gás mais produtiva do mundo. É importante manter essa obrigatoriedade?
Ronaldo Fiani: Sim, mas não é suficiente.
CC: Por que?
RF: No debate político e na maior parte da mídia, a questão é apresentada como se fosse um dilema entreguismo versus soberania nacional. É bem mais complicado do que isso, principalmente quando se considera que a Petrobras está em campos do pré-sal associada com empresas chinesas que já investiram 10 bilhões de dólares na operação. Isso em uma área de influência dos Estados Unidos. É razoável, portanto, avaliar o problema num quadro mais amplo, como um reflexo, na questão do pré-sal e na América do Sul, do confronto geopolítico maior e mais estrutural que nós estamos vivendo.

CC: A abordagem predominante é de encarar o pré-sal como um assunto estratégico de suprimento de energia.
RF: É bem mais abrangente que isso. Energia, geopolítica guerra sempre estiveram ligadas. A expressão mais direta e fundamental de poder dos Estados é a capacidade de fazerem guerra. A partir do século 19, houve uma mudança dramática. Com a revolução industrial, começou-se também a fazer guerra em escala industrial. A capacidade de o estado projetar poder passou a depender, essencialmente, da sua produção de armas, munição, navios. Para movimentar essa máquina, há necessidade de energia em quantidade crescente.
No século 20, o próprio ato de guerrear passou a consumir energia de forma fantástica. Foi quando o primeiro-ministro Winston Churchill decidiu mudar o combustível da marinha real britânica, a maior do mundo, de carvão para petróleo.
Ele tomou essa decisão porque os navios movidos a óleo eram mais rápidos e, principalmente, podiam ser abastecidos em alto mar, coisa que no navio movido a carvão era praticamente impossível. Além disso, exigia uma mão de obra menor só para cuidar do combustível. No navio de guerra usual, muito da mão de obra era para cuidar do carvão. A substituição, portanto, liberava soldados para cuidar dos armamentos.
CC: E a marinha ganhava agilidade.
RF: A possibilidade de reabastecer em alto-mar deu uma mobilidade fantástica para a marinha britânica, e depois à dos Estados Unidos, mas criou um problema. A Grã-Bretanha tinha reservas de carvão no seu próprio território, mas naquela época ainda não tinha petróleo, que estava na Ásia Central e depois, no Oriente Médio. Isso criou a questão geopolítica na energia. Porque se você corta as fontes de combustível, paralisa uma máquina de guerra praticamente de imediato.
Pearl Harbour aconteceu porque os Estados Unidos, que produziam seis sétimos de todo o petróleo consumido na Segunda Guerra Mundial, tentaram impor um embargo de petróleo ao Japão.
A decisão de Hitler, considerada um grave erro por analistas menos informados sobre a questão energética, de dirigir as suas tropas para Stalingrado ao invés de ir direto a Moscou, ocorreu porque as forças alemãs precisavam desesperadamente do petróleo do mar Negro e do Cáucaso para se deslocar e resistir em uma guerra prolongada. A substituição do combustível aumentou muito a capacidade da Grã-Bretanha, e depois dos Estados Unidos, de projetar poder naval.
CC: O acesso à energia é, portanto, crucial.
RF: Sim, mas para fazer guerra hoje, com a indústria moderna, em grande escala, não basta um superávit permanente de energia, é preciso também negar ao inimigo o acesso às fontes de energia. O confronto geopolítico contemporâneo é um gigantesco xadrez que inclui a América do Sul, África Ocidental, Ásia, e consiste na manipulação de fontes de energia, através da construção de oleodutos e gasodutos que integrem países, permitam ter acesso a fontes de energia e eventualmente negá-lo a outros países, hostis.
CC: Quais são os elementos principais da geopolítica nos dias atuais?
RF: A geopolítica no século 19 visava, basicamente, garantir as rotas navais, por serem o meio de expansão comercial no globo. Na primeira década do século 20, o geógrafo Halford Mackinder, na Inglaterra, e depois o estrategista Nicholas J. Spykman, nos Estados Unidos, perceberam que o poder naval não era mais suficiente.
O desenvolvimento do transporte terrestre, especialmente das ferrovias, podia se tornar uma base de poder muito grande, por permitir o transporte de tropas e armamentos mais rápido que os navios.
E isso se tornava particularmente grave porque, face a possibilidade de integrar Ásia e Europa, fatalmente Grã-Bretanha, Estados Unidos e outros países seriam empurrados para a margem do sistema global. Juntar Ásia com Europa resulta na maior massa de terra, recursos e população do planeta, a chamada Eurásia.
Daí porque toda a estratégia dos Estados Unidos no pós-guerra seria exatamente conter qualquer poder que busque integrar Ásia e Europa. A sabedoria da China, carente em energia, foi usá-la para se expandir
CC: Qual a importância da China nesse contexto?
RF: É crucial porque, ao contrário dos demais estados e forças políticas, não busca integrar Ásia e Europa politicamente, mas economicamente, através das famosas rotas da seda, eixos de infraestrutura de comunicação, transporte e, principalmente, energia. Há uma série de desdobramentos extremamente importantes. O primeiro tem a ver com a Rússia, essencial no projeto chinês de integrar Ásia e Europa. Decorre daí a escalada de tensão entre a Otan e a Rússia. Sem o apoio desse país, não é possível fazer aquela integração, por causa da posição geoestratégica que a Rússia desfruta nessa união. Na América do Sul, os investimentos chineses buscam integrar os países à rede de interesses em construção para a Ásia e a Europa, com a mesma estratégia. Investe-se em energia, transporte, inclusive há o projeto da estrada de ferro proposta pela China para ligar o Brasil ao Pacífico.
CC: Por que a integração de Ásia e Europa através da China é tão importante?
RF: A maior massa de terra é a junção de Europa e Ásia. Para controlar a Eurásia, é preciso dominar o seu centro, a Ásia Central. Quem fizer isso, controlará o planeta. Essa é a visão de Mackinder. Grã-Bretanha e, de certa forma, Estados Unidos têm uma preocupação muito grande em impedir que outro poder político domine a Ásia Central.
Entretanto, todas as tentativas nesse sentido fracassaram no século 20, por se tratar de um mosaico de culturas e povos que dificulta muito a unificação política da região. O que os chineses estão fazendo agora? Não estão unificando politicamente, mas economicamente. Eles constroem, neste momento, uma monumental infraestrutura de transporte e telecomunicações para ligar a China à Europa, passando pela Ásia Central. Com isso, a energia se transformou num instrumento para controlar aquilo que Mackinder considerou o centro da política no tabuleiro internacional.
A grande percepção da China foi transformar aquilo que em princípio seria uma debilidade da sua estratégia de potência, que é o fato de não dispor de fontes de energia, em um instrumento para unificar e projetar o seu poder economicamente sobre o centro do tabuleiro da Eurásia, com a ajuda inestimável e muito bem-vinda da Rússia. O Brasil se vê distante da guerra geopolítica, mas está no seu centro
CC: Como o Brasil se posiciona no jogo geopolítico?
RF: Essa é uma questão extremamente difícil, porque a inserção do País é muito problemática. O movimento da China para controlar o centro da Eurásia economicamente, inclusive importando energia, não é observado por Estados Unidos, União Europeia e Japão de forma tranquila. Ao contrário, determina um aguçamento do conflito, como se observa na Ucrânia, na Macedônia, na Síria, reflexos do esforço das chamadas potências ocidentais para afastar a possibilidade de unidade entre Ásia e Europa mediada pela China. São conflitos em torno da área de influência de Rússia e China.
É importante entender que a parceria entre Rússia e China não é apenas uma questão de conveniência de dois países que se sentem ameaçados. Ela é geoestratégica, porque a condição necessária para os chineses alcançarem a Europa de modo eficaz é o apoio da Rússia, influente na Europa Central. Do mesmo modo que o respaldo da China é indispensável para a Rússia enfrentar a Otan.
Desde o ano passado, uma ferrovia une Yiwu, próxima a Xangai, a Madri, na Espanha, para transporte de carga em tempo muito inferior ao dos navios. Esse é o pesadelo dos países que perderiam poder em escala global se essa articulação realmente acontecer. O Brasil está exatamente no meio desse conflito entre Estados Unidos e seus aliados e China e Rússia e seus aliados.
CC: Por que?
RF: Porque a questão não é apenas garantir oferta de energia para a capacidade de um país projetar poder, é principalmente negar ao outro que o confronta o acesso a essas fontes de energia.
E nós temos não só grandes reservas no pré-sal como uma empresa brasileira com capacidade de explorar essas reservas, o que nos dá uma notável autonomia para aproveitar esse recurso, e essa empresa se encontra associada às empresas chinesas de petróleo CNOOC e CNPC.
Portanto estamos inseridos num espaço tradicionalmente de influência norte-americana, com uma empresa com capacidade tecnológica de explorar o pré-sal, associada a uma empresa chinesa. Estamos exatamente, digamos assim, na linha de confronto. A situação é agravada ainda mais pelo fato de termos um projeto de submarino nuclear com capacidade de fechar o corredor do Atlântico, por ser muito mais rápido que o convencional.
Há uma crença generalizada no País de que nós estamos fora desse confronto entre Oriente e Ocidente. Devido às reservas energéticas e as matérias-primas que temos, estamos diretamente na linha de frente desse conflito.
A posição oposta, de que isso tudo não nos diz respeito por estar muito longe, é profundamente equivocada e pode ter consequências gravíssimas. E isso me preocupa muito porque eu não vejo por parte dos políticos, das lideranças políticas, e mesmo da maior parte dos intelectuais brasileiros, a percepção desse quadro. Não temos uma liderança extremamente hábil como foi Getúlio Vargas
CC: Seria melhor fazer parceria com a China ou os Estados Unidos?
RF: Examinada de perto, nenhuma das duas parcerias atende, neste momento, às necessidades do Brasil. O modelo chinês de desenvolvimento é muito parecido com o padrão britânico do século 19, no sentido de que a China consome matérias primas e exporta produtos industrializados e nós exportamos matérias-primas e importamos manufaturados chineses.
Segundo especialistas em comércio exterior, a economia brasileira tem-se tornado progressivamente competidora com a economia norte-americana, por exemplo em soja e automóveis. Fazer exportações significativas desses produtos aos EUA parece pouco provável, pois eles são grandes produtores. Não há, portanto, uma relação de complementaridade. Um alinhamento automático, quer a um lado, quer a outro, provocaria danos irreversíveis na economia nacional.
CC: O que o Brasil deveria fazer nesse contexto?
RF: Falta ao País a formulação de uma estratégia frente a esse confronto geopolítico global. Não percebo, entretanto, em nenhuma força política, a formulação dessa estratégia.
CC: O contexto político-econômico do País é uma complicação adicional.
RF: O sistema político do País está se desintegrando e não há nenhuma preocupação em preservar as organizações e instituições. A partir daí, o que vai acontecer é absolutamente imprevisível.
CC: No período de Getúlio Vargas, o País soube tomar partido do conflito que opunha as forças aliadas e o chamado eixo.
RF: Exatamente. Entre os anos 1930 e hoje, claro que são situações historicamente muito diferentes, mas há um traço comum: tanto naquele momento como agora, o mundo vivia um confronto geopolítico. Só que naquele período tivemos uma liderança extremamente habilidosa, que era o Getúlio Vargas (nota da redação: na Segunda Guerra Mundial, Vargas ameaçou aliar-se ao Eixo Alemanha-Japão-Itália e com isso obteve dos Estados Unidos, através do Eximbank, financiamento para construir a Usina de Volta Redonda, fundamental para a constituição da indústria no Brasil).
Hoje, nós não temos uma liderança semelhante. Como é que o País fica? Ao invés de se pensar uma estratégia, há uma captura das elites políticas no Brasil por esse confronto geopolítico. Há uma polarização antiamericanismo versus alinhamento automático com os Estados Unidos, evidência de que ocorreu uma captura dos agentes pela própria dinâmica do confronto geopolítico. É extremamente preocupante por serem duas saídas muito simplistas.
Na verdade, o Brasil não pode prescindir nem dos Estados Unidos, dada a posição que esse país ocupa no continente e o fato de ainda ser a maior potência global, nem da China, que hoje, de certa forma, sustenta o comércio exterior brasileiro. É preocupante não se discutir alternativas. Há uma captura pela mesma dinâmica de polarização do confronto global. Assim vai ser difícil conferir à economia brasileira o dinamismo necessário para sustentar cerca de 200 milhões de habitantes. A nossa afinidade está muito mais na África do que na América andina.
CC: Como o senhor vê esse movimento do Ministério das Relações Exteriores que pode resultar no fechamento de representações na África?
RF: Alguns dizem que o Brasil é o país mais ocidental da África, em tom crítico. Não vejo necessariamente como crítica ou elogio. Houve uma dinâmica muito forte de expansão de representações brasileiras na África com base em um desejo de ampliar a participação e a credibilidade do País no cenário global, torná-lo um player efetivo nas relações internacionais. No quadro de confronto geopolítico mencionado, essa perspectiva não é errada, mas precisa ser situada em um contexto.
Hoje a economia brasileira não encontra solução no alinhamento automático em nenhum dos dois lados do confronto global e é necessário estabelecer vínculos comerciais com países que são também uma alternativa para o avanço da nossa economia. Essas representações devem ser avaliadas da perspectiva daquilo que a relação entre os países pode gerar para dinamizar a economia brasileira. Visar simplesmente a projeção do Brasil no cenário internacional, num clima de confronto, é muito difícil.
CC: Qual é a relação entre geopolítica e a questão da energia?
RF: Um dos enganos mais comuns é considerar a energia como uma questão isolada. Energia, ao menos desde o início do século 20, é uma questão geopolítica. Pensá-la isoladamente como um problema em si leva a não perceber que a questão energética sempre estará inserida num contexto geopolítico e será determinada por injunções geopolíticas, ainda mais no momento atual.
CC: Como ficam a América Latina e a África no conflito geopolítico descrito?
RF: Essa é uma pergunta que também me obriga a ir contra a crença geral. Muito da geopolítica brasileira foi pensada numa espécie de extrapolação do Tratado de Tordesilhas. Como nós empurramos a linha de Tordesilhas para o Oeste, o destino brasileiro seria os Andes, seria chegar no Pacífico. É possível ver uma retomada disso naquele projeto mencionado de ferrovia ligando o Brasil ao Pacífico e chegando no Peru, que os chineses estão propondo. Mas é importante ter uma outra dimensão, que é social e cultural, da geopolítica.
Na verdade, nós temos profundas, fortes e muito sólidas raízes africanas. A nossa afinidade está muito mais na África do que na América andina. Na verdade, nós temos que nos orgulhar disso, porque a nossa afinidade está na África, a nossa facilidade de diálogo está na África. Então, novamente, as potências que estabelecerem uma aliança com o Brasil terão um pé na África.
Daí vem também uma outra dimensão que não tem necessariamente a ver com energia, tem mais a ver com história e geografia, da nossa importância geopolítica nesse conflito, que é o fato que o Brasil é uma ponte para a África.
Portanto controlando este lado do tabuleiro, você cria afinidades com outro lado do tabuleiro também. Ajuda nesse movimento. Além, é claro, de você controlar o Atlântico Sul.
CC: Todos esses fatores, conclui-se da sua análise, tornam a questão energética uma arma geopolítica.
RF: E é por isso que hoje pensar a questão energética do País como um problema única e exclusivamente econômico, como um problema de ‘como fica o custo de extração do pré-sal com a manipulação de preços dos sauditas’, é pensar de uma forma totalmente errada. Até porque, como os sauditas estão mostrando, energia sempre foi e sempre será, uma arma de luta política e geopolítica.
O que mais me preocupa neste momento é que não parece existir, nem das lideranças políticas nem na intelectualidade de uma forma geral, a percepção da gravidade do posicionamento brasileiro nesse conflito geopolítico internacional. Não adianta o domínio do pré-sal se não houver uma estratégia definida a partir da percepção desse contexto.
FONTE: http://www.cartacapital.com.br/economia/201cbrasil-se-ve-distante-da-guerra-geopolitica-mas-esta-no-centro201d






































